Inscrições abertas para workshop em Brasília

Acontece em Brasília, de 4 a 6 de julho, e já dá para se inscrever no workshop Entre Percursos e Circuitos – Manobras da Arte, que integra o programa Rumos Artes Visuais 2011/2013, trazendo ao debate os caminhos da arte contemporânea. Os encontros foram organizados pelos oito curadores viajantes da edição 2011/2013 do Rumos Artes Visuais, e são direcionados a profissionais da área, como pesquisadores, estudantes, artistas e galeristas.

A programação acontece no Instituto de Artes da Universidade de Brasília, e tem curadoria de Vânia Leal, velha conhecida deste blog. As inscrições podem ser feitas pelos telefones (61) 3107 1169 e (61) 3107 1172 ou pelo email cida@unb.br.
O programa pretende oferecer suporte na formação profissional de agentes do meio, e base crítica para uma leitura qualitativa da produção atual, através de promover encontros com artistas e agentes culturais das cidades visitadas. Mais informações aqui.
Entre Percursos e Circuitos – Manobras da Arte

Brasília (DF)
quarta 4 a sexta 6 de julho
das 19h às 23h
Instituto de Artes da Universidade de Brasília

inscrições a partir de 19 de junho pelos telefones (61) 3107 1169 e (61) 3107 1172 ou pelo email cida@unb.br

Instituto de Artes Visuais – Auditório do Departamento de Artes Visuais | Campus Universitário Darcy Ribeiro | Prédio SG1 | Asa Norte | Brasília DF

Conversa no Atelier do Porto


Neste sábado, dia 04, às 10h, Vânia Leal, curadora da região Norte do Rumos Artes Visuais, faz uma palestra sobre sua experiência de curadoria no Atelier do Porto, em Belém. Além disso, aproveita para tirar dúvidas e dar orientações para a montagem dos dossiês visuais dos artistas.

Pra quem ainda não conhece, o Atelier do Porto fica na Rua Gurupá, n°104 (entre Dr. Malcher e Dr. Assis), Cidade Velha, Belém/PA. Mais informações aqui.

Lembrando que ainda dá tempo de se inscrever no Rumos Artes Visuais, com o prazo do programa prorrogado para o dia 26 de junho.

O Acre e as Artes Visuais

Dito e escrito, amigo leitor, cordial leitora: segue o relato de Vânia Leal sobre sua imersão nos ares do Acre, a viagem de mapeamento para o Rumos Artes Visuais que terminou transcendendo em experiência sensorial, espiritual, filosófica, e é só seguir:

Quinta-feira, 28 de março de 2011

Rumo ao espírito vivo da florestania!

Decolo de Belém para Rio Branco, e não imaginava um percurso tão longo. Fiz escala em Brasília, Manaus e Rondônia. Confesso que já estava preocupada, mas, enfim, o Acre! Logo que vi a exuberância da floresta o cansaço ficou de lado.

Deixei parte da bagagem no hotel e, como já havia planejado, chamei um táxi para me levar a Xapuri. O encontro com os artistas seria no dia seguinte e eu estava determinada a passar a noite por lá.

O Acre é o centro da Panamazônica, está integrado aos demais estados do Brasil, à Bolívia e ao Peru. E nessa região, em um raio de 750 km, vivem 30 milhões de pessoas de diferentes culturas.

Estava consciente de que pisava num solo de 16 milhões de hectares de floresta tropical, com a maior biodiversidade do planeta. Um fato curioso é que metade de seus habitantes vive na floresta. Dentre eles, 15 mil são indígenas, de 14 etnias diferentes, distribuídos em 32 reservas, onde preservam suas tradições.

As comunidades se organizam a partir de uma produção familiar que utiliza o rio como principal meio de transporte e a própria floresta como meio de alimentação.  Este fato gera conflitos por posse de terras, e uma defesa coletiva do meio ambiente. A Amazônia é um lugar de conflito constante. Os acreanos não deixaram a soja entrar na região, diferentemente de Santarém, que enfrentou problemas sérios, sociais e ambientais, até hoje refletidos na paisagem.

Os acreanos cultivam a florestania, seu princípio de respeito ao meio ambiente e à multiplicidade sócio-cultural.

Sabemos que desde sua ocupação, o Acre chamou a atenção do mundo graças ao látex e à figura de Chico Mendes, que se transformou num símbolo mundial de preservação ambiental. Estando ali, percorrendo a cidade, ouvindo as pessoas, entendemos a razão do legado e da projeção de Chico nos programas de desenvolvimento sustentável da região.

Ao visitar o roteiro “Caminhos de Chico Mendes”, o Seringal Cachoeira, entrei em contato com a natureza amazônica e a história de Chico. Deparei-me com grandes áreas de floresta nativa e uma população que vive dos recursos extraídos dessa floresta. No caminho, uma cutia atravessava lentamente. O motorista parou e esperou ela fazer a travessia. Ele me disse: “todo ser vivo deseja viver, nós é que estamos no ambiente dela”. Entendi aquela atitude, e, realmente, nós é que somos invasores na Amazônia, os animais estão lá, em seus lugares de direito.

Para mim foi um divisor de águas conhecer o Seringal Cachoeira. Vivi intensa emoção, e entendi parte da constituição de nosso universo étnico e florestânico. Sentir o cheiro e mistério da noite que chega ao andar sob os caminhos do lugar é um estado de espírito, uma experiência filosófica que deve ser sentida.

Ao amanhecer fiz o caminho de volta, e fui ao centro conhecer as tradições indígenas amazônicas e andinas do uso da Ayahuasca, conhecido como “Santo Daime” no Acre e “Ayahuasca” no Peru. O chá sagrado revela uma herança cultural comum. No Acre, nos anos do século XX, essa bebida sagrada foi apreendida por seringueiros brasileiros que recriaram as tradições indígenas amazônicas e andinas do uso da Ayahusasca, agregando a elas outros elementos afro-brasileiros e cristãos, e firmaram uma nova religião que passou a ser chamada de “Santo Daime”.

Em conversa com o senhor Antônio, verifiquei que surgiram assim, a partir dos ensinamentos do Mestre Irineu Serra, outras doutrinas com elementos rituais variados, como a Barquinha e a União do Vegetal, que se integram às atuais sociedades e culturas da Amazônia ocidental e são praticadas por milhares de pessoas nesta região. Não poderia vir ao Acre e deixar de conhecer a origem do chá sagrado que nasceu no interior da imensa floresta amazônica.

Cine Recreio, onde aconteceu o encontro do Rumos Artes Visuais

Às 10h sigo para o Cine Recreio, no Calçadão da Gameleira, que fica ao lado da Fundação de Cultura Elias Mansur. Fui bem recebida pelas pessoas da Fundação (o Herbert Levy me acompanhou em todos os momentos). Conheci pessoas, usei a internet, e rapidamente me senti em casa. Logo entendi que o povo da floresta tem um propósito: a simplicidade e simpatia são para eles características muito bem demarcadas, como um bem patrimonial a ser cultivado.

Logo os artistas começaram a chegar, e o Cine Recreio é incrível, um lugar estruturado, tudo novinho. A integração foi imediata, Lucie Maria, Luiz Felipe, Tibério, Iracema, Jocilene, Edila, Jean, Uelliton, Marco Moura, Wenned, Moisés, Paulo Sérgio, Luiz Carlos, Raul, Glicério, Darci, Danilo, Clementino, alunos do curso de Artes Visuais e a equipe da Fundação estavam presentes.

Grupo de artistas acreanos

As falas dos artistas foram consistentes, e logo percebi uma política cultural comprometida com o lugar. Vi trabalhos e conversamos sobre o edital, e de lá já fui com o Ueliton Santana em seu ateliê.

Um fato interessante é que os artistas, em sua maioria, foram estudar na Faculdade de Belas Artes em Cuzco, no Peru. Ueliton é um deles. Atualmente faz Artes Visuais no Acre. Este processo provoca interferências culturais na produção contemporânea dos artistas, e isso é visível nos trabalhos de Ueliton, que me falou estar contaminado pela mistura de culturas.

Espaço Usina

À tarde fui ao ateliê de Jean Carlos, que faz pintura e objetos voltados para o escorrismo. Conhecer o lugar foi muito importante para perceber o diálogo dos artistas. Depois me dirigi para a Usina, uma antiga fábrica de castanhas. O lugar foi todo adaptado para cursos de Artes Visuais, Teatro, Cinema e Música. A estrutura é incrível, e os projetos desenvolvidos são dinâmicos, acompanham a cena contemporânea da arte. Lá também verifiquei o trabalho de gravura da Lucie Schreiner, bem expressiva.

Casa de madeira dentro do Espaço Usina

Grupo que trabalha na Usina

Depois paramos na casa do Glicério, responsável pela Associação dos Artistas Plásticos do Acre – AAPA. Lá conheci o trabalho do jovem artista Wennedy, estudante do primeiro ano de Arquitetura. Ao olhar seu trabalho, comentei: “gostei muito do teu olhar fotográfico!”. Ele me respondeu: “mais isso não é fotografia, é pintura quase fotografia”. O diálogo foi rico, e vi que o Wennedy sabia o que estava fazendo.

Casa de Glicério

Fim de tarde fui num bar chamado Batatão, de frente para o rio Acre. O garçom se aproximou e perguntou se eu queria um sujinho. Pedi explicação, e entendi que o sujinho é um chope super gelado, que ainda vem com duas pedras de gelo, e na borda do copo um sal cristalizado com gosto de limão que se mistura quando tomamos. Depois de dois dias de trabalho intenso, me permiti experimentar o sujinho e observar o entardecer sobre as casas coloridas. No Acre, é uma hora a menos de Belém, e assim tive a chance de perceber o dia mais devagar e a luz natural pouco a pouco sendo substituída pelas luzes da cidade. Outra cidade se revelou para mim.

Entardecer de frente para o rio Acre e suas casas coloridinhas

Luzes na cidade: Passarela Joaquim Macedo

Sobre o rio Acre, a Passarela Joaquim Macedo toda iluminada dá um charme complementar ao Calçadão da Gameleira, o sítio histórico mais antigo da cidade, bem em frente ao Mercado Municipal e repleto de mesas com pessoas contemplando a noite calma.

No Mercado, tradicionais lojinhas de ervas, artesanatos e lanchonetes especializadas na culinária regional.

De manhã andei pela cidade, vi ciclovias, a Biblioteca da Floresta, restaurantes e lojas sempre emolduradas por árvores e gramados. O Parque da Maternidade é enorme, e lá está instalada a Casa dos Povos da Floresta. Dei uma paradinha. Seu acervo sobre a cultura dos seringueiros, índios e ribeirinhos, além das lendas e segredos, é significativo.

Casa dos Povos da Floresta

Ter estado no Acre, conhecido e convivido com a simplicidade das pessoas, com a produção artística, com sua história e memória, mexeu comigo. Fui afetada por campos de força que me fizeram reencontrar com a identidade amazônica, aprendi lições importantes, como a delicadeza do detalhe, de ouvir em silêncio, aliás, de escutar o movimento natural do dia, e preservar e promover a vida dos seres que fazem a diferença no planeta. A experiência do Rumos é ímpar, porque nos faz ver as singularidades dos locais, exercitar a acuidade do olhar em integração com o outro.

Obrigada, Povos da Floreta do Acre, sou uma pessoa melhor!

[Vânia Leal]

Mais de Marabá

A expedicionária Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região Norte para o Rumos Artes Visuais, mandou mais uma série de relatos de viagem para a caixa de entrada do editor que vos fala, atento leitor, cuidadosa leitora. Começando pelo trecho final de Marabá, relato iniciado alguns posts atrás (em uma, duas partes), partindo em seguida para Rio Branco. Mas vamos por partes:

18 de março, 19h

No Galpão de Artes de Marabá (GAM), Ederson Oliveira, Jairon Barbosa, Deize Botelho e Antônio Botelho organizaram uma roda de conversa com os artistas, além de promover uma mostra dos trabalhos.

Roda de conversa no GAM: encontro super produtivo!

O GAM é um ponto de cultura importante para a região, e promove ações significativas voltadas para a cultura do povo marabaense.

Trabalhos expostos no GAM: propostas contemporâneas

Os trabalhos apresentados ganharam força. A pintura romantizada de paisagem, que tinha observado em alguns pontos da cidade, agora é substituída por trabalhos fortes, que pensam a relação de Marabá e suas transformações, do ponto de vista político e social.

Antônio Botelho apresenta uma pesquisa interessante com tábuas de cortar carne e suas marcas, além da relação de memória na cidade.

Uma artista que também faz parte da história de Marabá e tem seu acervo no GAM é Teresa Bandeira, que merece aqui nosso registro.

Jairon Barbosa me levou para conhecer Lúcia, uma artista que mora num lugar bem deslocado da cidade, quase num sítio.

Casa da Lúcia

Ouvindo histórias de vida

Lá ouvi sua história, e o quanto Lúcia se sente excluída por não tem seu trabalho reconhecido. São produções de malas em série, feitas de madeira e couro, que remetem à memória de sua infância, onde os guardados ficavam numa mala. Foi um encontro interessante! Num lugar silencioso, deslocado do barulho da cidade.

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (5)

Prestes a embarcar para o Tocantins, último trecho da viagem de mapeamento da região Norte para o Rumos Artes Visuais, Vânia Leal envia mais um relato. Diretamente de seu estado natal, o Amapá, de onde nos conta o seguinte:

Roteiro da viagem de 07 de Abril de 2011

Partida para Macapá. Chego com um sol forte, o calor é diferente, me pergunto: será por que a cidade é cortada pela Linha do Equador? Verifico que a cidade está localizada no sudeste do estado, é a única capital estadual brasileira que não possui interligação por rodovia a outras capitais.

Um dado curioso é que o município, isoladamente, representa 2,85% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) da região, por isso é a quinta cidade mais rica do Norte brasileiro. Vem se destacando entre as maiorias capitais brasileiras, pelo rápido crescimento econômico populacional, que já registra, segundo o último censo, mais de cinco mil habitantes na região metropolitana.

Visitei o Centro de Cultura Negra, o Teatro das Bacabeiras, o Centro Cultural Franco Amapaense, o Curiaú e o Marco Zero, que nos coloca ao mesmo tempo nos hemisfério Norte e Sul do planeta.

Nos meses de março e setembro, é possível observar o fenômeno do equinócio, durante o qual os raios solares incidem diretamente sobre a Linha Imaginária do Equador, fazendo com que dia e noite tenham a mesma duração.

Ao mesmo tempo nos hemisférios Norte e Sul do planeta. Momento de meditar sobre coisas boas...

Levei vários ovos quando fui ao Marco Zero, porque queria comprovar se realmente ficavam equilibrados devido à força gravitacional. Fiz e comprovei, foi muito interessante!

O ovo ficou totalmente equilibrado, bem no centro da Linha do Equador. Adorei a experiência!

Macapá é banhada pelo majestoso e imenso rio Amazonas, que emana os mitos que povoam o imaginário do homem amazônida. A cidade se volta para o rio, com o qual tem uma relação direta, devido à Orla que lhe acompanha.

Orla do rio Amazonas

Vista da Orla

Lá, somente lá, é possível comer camarão no bafo. Aliás, de todas as formas, e por mais que tentemos fazê-lo em casa, o sabor não fica igual.

A Fortaleza é exuberante, visitá-la é fazer um recuo na história e memória da cidade.

Segundo dia

Às 8h me dirigi ao SESC Araxá. Fui recebida por Aline Pacheco, gerente do núcleo Artes Visuais, que articulou nosso encontro, realizado em dois dias. O encontro foi super estruturado, com direito a lanche para todos os presentes, e mídia pedagógica para os artistas apresentarem seus trabalhos. Foi um momento de comunhão coletiva, de muita conversa e discussão acerca da produção contemporânea.

Turma de artistas do primeiro dia

O grupo Urucum esteve presente, e foi interessante ouvir dos artistas emergentes a importância do curso de Artes Visuais na cidade, como proponente e suporte para o contato e experimentação da linguagem contemporânea.

Turma de artistas no segundo dia

Tive oportunidade de ver vídeo-arte, performance, instalação, pintura, enfim, uma diversidade de diálogos com a linguagem hibrida da arte contemporânea, que não trabalha mais somente  técnica.

Entre os artistas participantes, estavam Cristiana Nogueira Menezes, João Vitor Rodrigues Ribeiro, João Batista dos Santos, Maria Pinho Gemaque, Cricilma do Socorro da Silva Ferreira, Adalto de Vilhena Pinheiro, César Barbosa da Silva, Manoel do Vale, José Ailson Monteiro de Farias, Everaldo Pereira Ribeiro, Jansen Rafael da Silva, Carlos Alberto de Alcântara Furtado, Aog Lima da Rocha, Miguel Arcanjo Ferreira, Grimualdo Barbosa, Ronne Franklim Carvalho Dias, Washington da Silva Ferreria, Natasha Parlagreco, Augusto Pessoa, Wagner Ribeiro, Jonatas Lacerda da Silva, Agostinho Josaphat Barbosa, Jenifer Nunes, Josiane Ferreira e outros, aos quais agradeço aqui pela participação ativa nos dias em que lá estive.

Hora de conferir o edital

À noite fui dançar o Marabaixo, pois todo amapaense que se preza sabe e gosta do batuque contagiante. Aliás, nasci em Macapá, daí ter essa proximidade. O Ciclo do Marabaixo é uma vasta programação religiosa, com danças e homenagens, que tem início no Sábado de Aleluia, na Semana Santa, e segue até o dia 24 de junho, unindo comunidades tradicionais de várias localidades do Amapá.

O ritmo do Marabaixo faz parte das raízes culturais que compõem a identidade amapaense. É resultado de tradições dos africanos que vieram escravizados para o Amapá. Hoje, são seus descendentes que procuram salvaguardar a música e a dança.

Ter estado em Macapá me renovou. Encontrei parentes, amigos, e, principalmente, alcancei o objetivo do Rumos junto aos artistas.

Viver em Macapá e em seus municípios, onde a natureza é tão envolvente, é algo a se agradecer: pela boa safra na roça para o fabrico de farinha, pela fartura dos rios, e por tudo mais que a natureza oferece pra vida do povo de lá, inclusive a diversão. Porque a alegria e a festa fazem parte da natureza do povo de Macapá-Amapá.

Viva São José da Beira Mar que protege Macapá!

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (4)

Contagie-se do pique, inestimável leitor, retumbante leitora, eleve-se alto ao Norte, de onde chegam mais notas de viagem, fotos e legendas de Vânia Leal, curadora de Mapeamento do Rumos Artes Visuais na região. Depois de Marabá, você fica sabendo de Santarém, também no Pará. Ó lá:

Santarém pede passagem

Quinta-feira, 24 de março

Decolo de Belém para Santarém. Voo entre o Pará e o Amazonas, e que vislumbre: o Amazonas se revela ali, diante de mim. Aterrisso em Santarém.

O primeiro dia é sempre dedicado a uma visita à cidade, para de alguma forma associá-la à produção dos artistas.

Museu de Arte Sacra

Ponto de encontro na Praça da Matriz. O melhor caldo de cana

Dirigi-me à Praça da Matriz, entrei na Igreja N. Sra. da Conceição, no coreto da praça e no Museu de Arte Sacra. Mas foi no Espaço Cultural João Fona que fiquei horas conversando com o diretor, o senhor Laurimar Leal, que é uma memória vida da cidade. Ouvi a história do lugar, as dificuldades que o museu apresenta – como, por exemplo, suas 63 lâmpadas queimadas –, ouvi sobre o descaso com o patrimônio. O sonho do diretor: ter um computador no museu. Fica aqui o registro.

Eu e o sr. Laurimar, no Espaço Cultural João Fona

Segui para o parque Silva Jardim, visitei uma feira de artesanato que acontece no terminal, e de lá fui ao mirante, observar o encontro das águas entre o rio Amazonas e o rio Tapajós. É de uma beleza excepcional!

Encontro do rio Tapajós com o rio Amazonas. Ver para crer!

Nessa pausa, o calor se mistura ao frescor, e o ar agora tem cheirinho de férias. Na Amazônia, costuma-se dizer que o rio é a rua. Tem até uma música do Rui Barata que diz assim, “esse rio é minha rua/ minha e tua mururé/ piso no canto da lua/ piso no chão da maré”. Olhando o rio Tapajós, confirmo o que disse o poeta, pois ali se transportam vidas, mercadorias e sonhos. Barcos pequenos se misturam com outros maiores e fazem a ligação entre as cidades vizinhas.

Entrada do Museu Dica Frazão

À tarde fui ao museu da senhora Dica Frazão, que é o único museu do mundo que produz roupas com fibras naturais da Amazônia. Tudo é recolhido da natureza, das cascas das árvores, das centenas de palhas de todas as espécies. Desde a linha de costura. Ela me conta, orgulhosa: “fiz um vestido para a rainha Fabíola da Bélgica”, e na vitrine expõe uma réplica. Aliás, na vitrine há vestidos de noiva e modelos com um corte refinado.

Ateliê de Dona Dica Frazão

Réplica da roupa feita para a rainha da Bélgica

Guardei na memória a seguinte frase que Dona Dica me disse: “troquei os tecidos pela natureza”.

Dica Frazão: patrimônio imaterial de Santarém

E foi com a natureza que me integrei nos dias em Santarém. Uma cidade encantadora que tem uma orla elegante com barcos todos novinhos. Segundo o último censo, a cidade tem mais de 300 mil habitantes, e está em pleno crescimento. Tem várias faculdades, variados hotéis e pousadas.

Os barcos na orla são novinhos, todos pintados

No fim da tarde, fui experimentar o melhor tacacá da cidade, e lá conheci a Dona Didica, que tem muitas histórias para contar. O tacacá realmente merece o título que carrega, e sou uma tomadora de tacacá em potencial. Em Belém, quase sempre sou atraída pelo cheiro do tucupi que exala em alguns pontos da cidade nos finais de tarde.

O melhor tacacá de Santarém, feito por Dona Didica

À noite fui à casa do Egon Pacheco, um artista comprometido com a produção contemporânea e com a cidade. A articulação do Egon foi importante, pois conseguiu reunir um grupo significativo de artistas. Dentre eles, Cicley Araújo, Marcio Desencourt, Adrion Denner, Elvis, Edú Costa e um senhor chamado Moisés de Vasconcelos, que apresentou uma pintura de paisagem expressiva.

Com os artistas, na casa do Egon Pacheco

Fiquei super animada com a produção do grupo, ficamos muitas horas vendo trabalhos no computador, e também alguns que foram trazidos pelos artistas.

Quando digo que é um grupo significativo, não estou me referindo à quantidade, mais à qualidade dos trabalhos, que dialogam com o lugar, mas que vão muito além, vão para outros lugares.

Exposição do artista Egon Pacheco no SESC

Dia 25, pela manhã, me dirijo ao SESC, e logo na entrada deparo com a galeria onde há uma exposição individual do Egon Pacheco. Uma série de xilogravuras em que as matrizes foram produzidas em madeiras deixadas pelo meio do caminho na cidade. Depois nos reunimos no cinema, para ver o vídeo do Rumos e comentar o edital e outras questões.

Encontro no SESC

Posteriormente fui à casa do artista Elcicley Araújo, onde fui recebida com um café gostoso feito pela sua mãe. Vi seus trabalhos e o constante pensar inquietante do artista. De lá, seguimos para Alter do Chão, uma praia que fica a 32 km de Santarém, situada entre Belém e Manaus. Eu estava decidida a cumprir um ritual: entardecer nas águas do rio Tapajós, comungar com o lugar.

Na casa do artista Elcicley Araújo

Eu e Elcicley Araújo em Alter do Chão. Momento ímpar!

A natureza é vívida, a praia é cercada por um verde, uma diversidade natural que mais parece um santuário.

Alter do Chão é conhecida pela Festa do Sairé, que acontece no mês de setembro, e durante cinco dias subverte o cotidiano da antiga vila de pescadores, pela exibição do boto Tucuxi e Cor de Rosa. Alter do Chão tem 300 habitantes, mas na época do Sairé recebe mais de 80 mil pessoas.

O boto é uma figura emblemática, e evidencia uma lenda que tem tudo a ver com as comunidades ribeirinhas. Quando eu era criança, por conta do boto, tinha medo de ficar sozinha no rio.

Observei, em Alter do Chão, rostos amazônicos, sangue indígena e caboclo, uma diversidade que o país oferece. Senti-me em casa, encontrei-me por algum momento com minhas raízes.

Às 18h, experimentei as águas do rio, com a noite anunciando um momento mágico ao ar livre. Lembrei-me do boto, mas logo me dei conta de que não posso mais engravidar, sorri e agradeci a Deus por aquele momento.

Ave Alter do Chão!

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (3)

É só seguir as linhas, amigo leitor, cordial leitora, para continuar com o roteiro do segundo dia de Vânia Leal em Marabá, em viagem de mapeamento da região Norte do país para o Rumos Artes Visuais. Por hoje é só, mas ainda há muito pela frente.

Segundo dia, 18 de março de 2011

Sigo para o GAM – Galpão de Artes de Marabá –, onde sou recebida pela Associação dos Artistas Plásticos de Marabá – ARMA, uma das entidades culturais mais atuantes do município. Fazem parte da nova diretoria da ARMA: Edmilson Gomes (Presidente), Arilson Barros (Vice-Presidente), Jairon Barbosa (Secretário), Marcone Moreira (Tesoureiro), Gabriel dos Reis, Domingos Nunes, Samir Raoni e Afonso Camargo (Conselheiros).

Estive na cidade em 2008, quando do Projeto Arte Pará, e naquele momento tive a oportunidade de conhecer alguns artistas. No encontro do Rumos, praticamente os mesmos estavam presentes. Não percebi avanço nas pesquisas, e a projeção em cima do Marconi Moreira é bem direcionada.

Percebi que há necessidade de desenvolver um processo de formação e conhecimento acerca da arte contemporânea. A pintura de paisagem é romantizada e é algo recorrente na cidade.

Grupo de artistas no Galpão de Artes de Marabá

Artistas na Galeria Vitória Barros

À tarde fui à Galeria Vitória Barros, e um grupo maior estava por lá. Dessa vez preparei um material no Power Point para abrir à dialógica, coloquei alguns propósitos do edital Rumos e, de propósito, questões de arte contemporânea. Arte relacional e as questões da cidade, a posição do artista na Amazônia e as questões políticas que permeiam o lugar. Neste dia a inquietação foi maior. Recebi alguns e-mails depois, com propósitos interessantes.

Orla de Marabá

À noite fui à Orla comer um peixe assado na brasa, uma delícia! Volto para Belém em paz, pronta para um novo desafio: ir a Santarém e me banhar no rio Tapajós, afinal sou índia e tenho minhas crenças: chegar num lugar desses faz-se necessário pedir licença para o rio.

Assim seja!

[Vânia Leal]