Mais de Marabá

A expedicionária Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região Norte para o Rumos Artes Visuais, mandou mais uma série de relatos de viagem para a caixa de entrada do editor que vos fala, atento leitor, cuidadosa leitora. Começando pelo trecho final de Marabá, relato iniciado alguns posts atrás (em uma, duas partes), partindo em seguida para Rio Branco. Mas vamos por partes:

18 de março, 19h

No Galpão de Artes de Marabá (GAM), Ederson Oliveira, Jairon Barbosa, Deize Botelho e Antônio Botelho organizaram uma roda de conversa com os artistas, além de promover uma mostra dos trabalhos.

Roda de conversa no GAM: encontro super produtivo!

O GAM é um ponto de cultura importante para a região, e promove ações significativas voltadas para a cultura do povo marabaense.

Trabalhos expostos no GAM: propostas contemporâneas

Os trabalhos apresentados ganharam força. A pintura romantizada de paisagem, que tinha observado em alguns pontos da cidade, agora é substituída por trabalhos fortes, que pensam a relação de Marabá e suas transformações, do ponto de vista político e social.

Antônio Botelho apresenta uma pesquisa interessante com tábuas de cortar carne e suas marcas, além da relação de memória na cidade.

Uma artista que também faz parte da história de Marabá e tem seu acervo no GAM é Teresa Bandeira, que merece aqui nosso registro.

Jairon Barbosa me levou para conhecer Lúcia, uma artista que mora num lugar bem deslocado da cidade, quase num sítio.

Casa da Lúcia

Ouvindo histórias de vida

Lá ouvi sua história, e o quanto Lúcia se sente excluída por não tem seu trabalho reconhecido. São produções de malas em série, feitas de madeira e couro, que remetem à memória de sua infância, onde os guardados ficavam numa mala. Foi um encontro interessante! Num lugar silencioso, deslocado do barulho da cidade.

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (4)

Contagie-se do pique, inestimável leitor, retumbante leitora, eleve-se alto ao Norte, de onde chegam mais notas de viagem, fotos e legendas de Vânia Leal, curadora de Mapeamento do Rumos Artes Visuais na região. Depois de Marabá, você fica sabendo de Santarém, também no Pará. Ó lá:

Santarém pede passagem

Quinta-feira, 24 de março

Decolo de Belém para Santarém. Voo entre o Pará e o Amazonas, e que vislumbre: o Amazonas se revela ali, diante de mim. Aterrisso em Santarém.

O primeiro dia é sempre dedicado a uma visita à cidade, para de alguma forma associá-la à produção dos artistas.

Museu de Arte Sacra

Ponto de encontro na Praça da Matriz. O melhor caldo de cana

Dirigi-me à Praça da Matriz, entrei na Igreja N. Sra. da Conceição, no coreto da praça e no Museu de Arte Sacra. Mas foi no Espaço Cultural João Fona que fiquei horas conversando com o diretor, o senhor Laurimar Leal, que é uma memória vida da cidade. Ouvi a história do lugar, as dificuldades que o museu apresenta – como, por exemplo, suas 63 lâmpadas queimadas –, ouvi sobre o descaso com o patrimônio. O sonho do diretor: ter um computador no museu. Fica aqui o registro.

Eu e o sr. Laurimar, no Espaço Cultural João Fona

Segui para o parque Silva Jardim, visitei uma feira de artesanato que acontece no terminal, e de lá fui ao mirante, observar o encontro das águas entre o rio Amazonas e o rio Tapajós. É de uma beleza excepcional!

Encontro do rio Tapajós com o rio Amazonas. Ver para crer!

Nessa pausa, o calor se mistura ao frescor, e o ar agora tem cheirinho de férias. Na Amazônia, costuma-se dizer que o rio é a rua. Tem até uma música do Rui Barata que diz assim, “esse rio é minha rua/ minha e tua mururé/ piso no canto da lua/ piso no chão da maré”. Olhando o rio Tapajós, confirmo o que disse o poeta, pois ali se transportam vidas, mercadorias e sonhos. Barcos pequenos se misturam com outros maiores e fazem a ligação entre as cidades vizinhas.

Entrada do Museu Dica Frazão

À tarde fui ao museu da senhora Dica Frazão, que é o único museu do mundo que produz roupas com fibras naturais da Amazônia. Tudo é recolhido da natureza, das cascas das árvores, das centenas de palhas de todas as espécies. Desde a linha de costura. Ela me conta, orgulhosa: “fiz um vestido para a rainha Fabíola da Bélgica”, e na vitrine expõe uma réplica. Aliás, na vitrine há vestidos de noiva e modelos com um corte refinado.

Ateliê de Dona Dica Frazão

Réplica da roupa feita para a rainha da Bélgica

Guardei na memória a seguinte frase que Dona Dica me disse: “troquei os tecidos pela natureza”.

Dica Frazão: patrimônio imaterial de Santarém

E foi com a natureza que me integrei nos dias em Santarém. Uma cidade encantadora que tem uma orla elegante com barcos todos novinhos. Segundo o último censo, a cidade tem mais de 300 mil habitantes, e está em pleno crescimento. Tem várias faculdades, variados hotéis e pousadas.

Os barcos na orla são novinhos, todos pintados

No fim da tarde, fui experimentar o melhor tacacá da cidade, e lá conheci a Dona Didica, que tem muitas histórias para contar. O tacacá realmente merece o título que carrega, e sou uma tomadora de tacacá em potencial. Em Belém, quase sempre sou atraída pelo cheiro do tucupi que exala em alguns pontos da cidade nos finais de tarde.

O melhor tacacá de Santarém, feito por Dona Didica

À noite fui à casa do Egon Pacheco, um artista comprometido com a produção contemporânea e com a cidade. A articulação do Egon foi importante, pois conseguiu reunir um grupo significativo de artistas. Dentre eles, Cicley Araújo, Marcio Desencourt, Adrion Denner, Elvis, Edú Costa e um senhor chamado Moisés de Vasconcelos, que apresentou uma pintura de paisagem expressiva.

Com os artistas, na casa do Egon Pacheco

Fiquei super animada com a produção do grupo, ficamos muitas horas vendo trabalhos no computador, e também alguns que foram trazidos pelos artistas.

Quando digo que é um grupo significativo, não estou me referindo à quantidade, mais à qualidade dos trabalhos, que dialogam com o lugar, mas que vão muito além, vão para outros lugares.

Exposição do artista Egon Pacheco no SESC

Dia 25, pela manhã, me dirijo ao SESC, e logo na entrada deparo com a galeria onde há uma exposição individual do Egon Pacheco. Uma série de xilogravuras em que as matrizes foram produzidas em madeiras deixadas pelo meio do caminho na cidade. Depois nos reunimos no cinema, para ver o vídeo do Rumos e comentar o edital e outras questões.

Encontro no SESC

Posteriormente fui à casa do artista Elcicley Araújo, onde fui recebida com um café gostoso feito pela sua mãe. Vi seus trabalhos e o constante pensar inquietante do artista. De lá, seguimos para Alter do Chão, uma praia que fica a 32 km de Santarém, situada entre Belém e Manaus. Eu estava decidida a cumprir um ritual: entardecer nas águas do rio Tapajós, comungar com o lugar.

Na casa do artista Elcicley Araújo

Eu e Elcicley Araújo em Alter do Chão. Momento ímpar!

A natureza é vívida, a praia é cercada por um verde, uma diversidade natural que mais parece um santuário.

Alter do Chão é conhecida pela Festa do Sairé, que acontece no mês de setembro, e durante cinco dias subverte o cotidiano da antiga vila de pescadores, pela exibição do boto Tucuxi e Cor de Rosa. Alter do Chão tem 300 habitantes, mas na época do Sairé recebe mais de 80 mil pessoas.

O boto é uma figura emblemática, e evidencia uma lenda que tem tudo a ver com as comunidades ribeirinhas. Quando eu era criança, por conta do boto, tinha medo de ficar sozinha no rio.

Observei, em Alter do Chão, rostos amazônicos, sangue indígena e caboclo, uma diversidade que o país oferece. Senti-me em casa, encontrei-me por algum momento com minhas raízes.

Às 18h, experimentei as águas do rio, com a noite anunciando um momento mágico ao ar livre. Lembrei-me do boto, mas logo me dei conta de que não posso mais engravidar, sorri e agradeci a Deus por aquele momento.

Ave Alter do Chão!

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (3)

É só seguir as linhas, amigo leitor, cordial leitora, para continuar com o roteiro do segundo dia de Vânia Leal em Marabá, em viagem de mapeamento da região Norte do país para o Rumos Artes Visuais. Por hoje é só, mas ainda há muito pela frente.

Segundo dia, 18 de março de 2011

Sigo para o GAM – Galpão de Artes de Marabá –, onde sou recebida pela Associação dos Artistas Plásticos de Marabá – ARMA, uma das entidades culturais mais atuantes do município. Fazem parte da nova diretoria da ARMA: Edmilson Gomes (Presidente), Arilson Barros (Vice-Presidente), Jairon Barbosa (Secretário), Marcone Moreira (Tesoureiro), Gabriel dos Reis, Domingos Nunes, Samir Raoni e Afonso Camargo (Conselheiros).

Estive na cidade em 2008, quando do Projeto Arte Pará, e naquele momento tive a oportunidade de conhecer alguns artistas. No encontro do Rumos, praticamente os mesmos estavam presentes. Não percebi avanço nas pesquisas, e a projeção em cima do Marconi Moreira é bem direcionada.

Percebi que há necessidade de desenvolver um processo de formação e conhecimento acerca da arte contemporânea. A pintura de paisagem é romantizada e é algo recorrente na cidade.

Grupo de artistas no Galpão de Artes de Marabá

Artistas na Galeria Vitória Barros

À tarde fui à Galeria Vitória Barros, e um grupo maior estava por lá. Dessa vez preparei um material no Power Point para abrir à dialógica, coloquei alguns propósitos do edital Rumos e, de propósito, questões de arte contemporânea. Arte relacional e as questões da cidade, a posição do artista na Amazônia e as questões políticas que permeiam o lugar. Neste dia a inquietação foi maior. Recebi alguns e-mails depois, com propósitos interessantes.

Orla de Marabá

À noite fui à Orla comer um peixe assado na brasa, uma delícia! Volto para Belém em paz, pronta para um novo desafio: ir a Santarém e me banhar no rio Tapajós, afinal sou índia e tenho minhas crenças: chegar num lugar desses faz-se necessário pedir licença para o rio.

Assim seja!

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (2)

Segunda parte do relato de Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região Norte do Rumos Artes Visuais. Aperte o cinto, aventureiro leitor, que vem lá o início, propriamente dito, da viagem:

De Belém a Marabá

A região de Marabá tem algo de excepcional – será que é pela vista de cima, que mostra o ponto de encontro entre os rios Tocantins e Itacaiunas, formando uma espécie de “y” no seio da cidade? Será que é pela oportunidade de entrar em contato com culturas diversas, sendo uma cidade de grande miscigenação, que faz jus ao significado popular do seu nome, “filho da mistura”? Ou então, porque a cidade também é conhecida como Cidade Poema, pois seu nome foi inspirado no poema Marabá de Gonçalves Dias?

Talvez seja por uma combinação desses fatores, mas o fato é que desperta curiosidade por uma visita à região, e experimentá-la é como algo único.

É um município brasileiro situado no interior do estado do Pará. Pertencente à mesorregião do Sudeste Paraense e à microrregião homônima, está ao sul da capital do estado, distando desta cerca de 485 quilômetros. É formada basicamente por seis distritos urbanos, interligados por rodovias.

O povoamento da região de Marabá se deu nos fins do século XIX, com a chegada de imigrantes goianos e maranhenses. A emancipação municipal ocorreu em 1913, com seu desmembramento do município de Baião.

Durante um grande período, o desenvolvimento do município foi dado pelo extrativismo vegetal, mas com a descoberta da Província Mineral de Carajás, Marabá se desenvolveu muito rapidamente, tornando-se um município com forte vocação industrial, agrícola e comercial. Hoje Marabá é interligada por três rodovias ao território nacional (BR-222, BR-230 e a PA-150), por via aérea, ferroviária e fluvial.

Atualmente, o município é o quarto mais populoso do Pará, contando com aproximadamente 233.462 mil habitantes, segundo o IBGE/2010.  É o principal centro socioeconômico do sudeste paraense, e uma das cidades mais dinâmicas do Brasil.

De Belém a Marabá é uma hora de voo, e ao andar pela cidade o calor toma conta, a luminosidade forte faz tudo ficar mais acelerado. As ruas do comércio são povoadas por motos, bicicletas, carros e pessoas que andam num rítmo diferente, o tempo se revela dinâmico pela aglomeração e lento pelo andar das pessoas, como se não tivessem pressa de chegar nos lugares.

Praça Central de Marabá

Encontramos ciganos acampados, uma grande comunidade que mora nas ruas. Na praça central, me deparo com abrigos feitos para pessoas que tiveram suas casas alagadas. Todo ano o rio Itacaiunas sobe, e a cheia já faz parte do cotidiano de Marabá. Entrei num desses acampamentos e era como se a casa tivesse sido transportada para lá. Ambiente da sala com televisão, estante, cadeiras de balanços, decoração de santinhos na parede, menino lá fora em sua bicicleta, enfim, o povo enfrenta as dificuldades com poesia.

Acampamento provisório, para os que tiveram suas casas alagadas

Visitei também o primeiro bairro da cidade, Cabelo Seco, atualmente uma área que necessita de cuidados, por conta de vários problemas sociais, como drogas e perigos constantes. Ao entrar no bairro, é como se a conexão com outro tempo acontecesse. Roupas no varal alto em plena rua, e música alta para todos os moradores, comandada por uma aparelhagem em pleno sol quente. Tecnobrega é o que há!

Cabelo Seco, primeiro bairro de Marabá

O tecnobrega teve momentos de interessante aspecto antropológico e social, com sua tecnologia de fundo de quintal produzindo músicas de salão rapidamente e da forma mais descartável possível, fugindo do falido esquema de gravadoras e utilizando aparelhagens e camelôs como armas, não como inimigos. Mas esse momento inicial passou.

Agora… tá valendo tudo. Me acordem quando o hype passar.  Foi uma onda de tecnobrega num dia quente no bairro Cabelo Seco, em Marabá.

[Vânia Leal]

Dias e noites do Norte (1)

Lubrifique os sentidos, caro leitor, amiga leitora, para a viagem que está pra acontecer. Você nem vai se levantar de onde estiver, mas dará um giro pelo Norte do país, ao preço apenas da leitura — cortesia do Rumos Artes Visuais, através de Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região, que nos envia uma expressiva série de impressões de sua viagem ao Pará. Siga a sinalização e vá em frente:

A ARTE NA AMAZÔNIA: uma região, o sentido deste lugar

Um fato de grande relevância, e que permeia e norteia muitas hibridações e mestiçagens no mundo contemporâneo, é aquele que indaga sobre o papel da diferença das culturas, identidades e subjetividades. Um suporte com muitas possibilidades para o artista.

É assim que a arte contemporânea parte para a experimentação de objetos, espaços, materiais e diálogos que antes não se imaginava, colocando num campo de possibilidades, aparentemente desprovido de metodologias ou injunções, o ambiente (lugar) enquanto poética de um fazer indutivo.

Acredito que este ambiente não implica comodidade ou prazer, mas demanda uma interpretação, um esforço aplicativo, uma vontade de estabelecer relação. Assim o artista passa a operar sobre o ambiente através das coisas e pessoas nele dispostas, propondo tanto uma reflexão do indivíduo sobre seu lugar/habitat quanto provocando uma reflexão do sujeito, onde ele mesmo, enquanto ser humano, é parte envolvida neste espaço da arte.

Ao pensar a arte em conexão direta com o lugar, os artistas contemporâneos estabelecem, a partir de novos campos de pesquisa, uma relação de percepção dos sentidos com lugares comuns, que passam a ser o lugar do novo, do diferente e do instigante a partir do olhar, da sensibilidade e da concepção artística, entre linguagem e mundo. A linguagem se apresenta como condição do humano, entre o interior e o exterior, entre o singular e o comum.

O lugar, a articulação dos exercícios da vida cotidiana, se dá no acontecer, não se parece com quaisquer comunidades reais, atuais, identificáveis, pois justamente quando se desfazem é que se afirmam, se legitimam. Dentro deste contexto, no campo artístico da atualidade eu entendo que o contato do artista com diferentes grupos, com a condição do humano nas práticas e experiências cotidianas, promove novas narrativas identitárias.

Neste sentido reporto-me à paisagem amazônica com seus elementos poéticos, políticos e sociais. Este ambiente tão longínquo no imaginário de muitos, até mesmo de seus habitantes, é a proponente de muitos diálogos.

A Amazônia é um todo heterogêneo, que abriga complexidades a serem consideradas. Sua biodiversidade, seus fazeres cotidianos tão cheios de saber, originam um ambiente subjetivo de ficção e, portanto, de filosofias, e outra parte que, desde a modernidade, se desenvolve em função da insatisfação com a desordem, e às vezes com a ordem, do mundo: além de conhecer e planejar, interessa transformar e inovar.

Os muitos lugares deste lugar exigem leituras pautadas no cotidiano, são leituras espontâneas que apenas a dinâmica da vivência diária proporciona, através do contato com o ambiente, do pisar no solo, do reconhecer dos cheiros, do paladar e do ouvir aquilo que lhe é familiar.

Acredito na importância de conhecer, e apreender o “interior” do lugar cotidiano, esse lugar que comum aos seus habitantes, que compreende uma relação tão mútua e íntima que se estabelece um vínculo afetivo, porém, longe de ser um Éden exótico. Para entender essa complexidade, nós – pesquisadores, artistas, curadores, educadores, enfim, estudiosos da criatividade, da circulação e do consumo culturais – temos que nos preocupar cada vez mais em entender os dados brutos, os movimentos socioeconômicos que regem com novas regras os mercados científicos e artísticos, assim como nossa instável vida cotidiana.

A Amazônia, longe de estar num patamar de unidade, constitui-se na diferença, e pensar a arte e a cultura compele à discussão dos fatores geopolíticos, seus atores e consequências culturais, que estão na base dos conflitos. A meu ver, a cultura não pode ser vista como um recurso de emergência, nem através da mágica de “criar uma nova cultura”, mas sim pela necessidade de ordenar os conflitos entre imaginários, daquilo que cada um imagina como globalização.

O artista da Amazônia é depositário de uma herança cultural e de valores. Também testemunha cotidianamente uma experiência dramática e perversa. Lanço então o seguinte questionamento sobre a proposição de mapeamento do Rumos: como conciliar desenvolvimento, respeito às populações tradicionais (índios, ribeirinhos, quilombolas e outros grupos), ecologia, sustentabilidade, progresso, conhecimento, justiça social e geopolítica?

Com isto em mente, me lancei à região Norte. Ao observar do alto do avião a dimensão da floresta, ao adentrá-la, entendi perfeitamente o conceito de “inferno verde”, empregado a partir do encontro de Francisco Orellana com as índias Icamiabas (e aprofundado por Euclides da Cunha com sua obra Um paraíso perdido. Ensaios amazônicos) para designar a região, como alusão às difíceis condições de vida na floresta durante a colonização.

Esses difíceis caminhos inscrevem a produção artística na Amazônia. Os artistas têm uma intimidade com o valor simbólico do lugar. Verifiquei a diversidade cultural de tempos para lá de assincrônicos, e a floresta ditando suas regras.

No entanto, o Acre não é Belém, e fora de Belém, no sudeste do Pará, Marabá e Santarém fortificam suas identidades independentes, uma outra região dentro da região. Rondônia não é Roraima, nem um Waiãpi é um quilombola. Amapá é fronteira com as Guianas Francesas, e a migração de ritmos é incrível. Cada vez mais o borramento acontece. Misturam línguas, costumes, a produção de cada lugar apresenta visões fenomenológicas de espaço e tempo, e as possibilidades de trocas culturais são muito especiais, muito peculiares.

Estes ambientes de contradições cotidianas confirmaram nas minhas andanças uma ampla rede de pesquisa para os artistas contemporâneos locais, que alguns atravessam no olhar, na superação das fronteiras legais, produzindo uma arte que confluí para a universalidade.

A influência do cotidiano amazônico faz-se inevitável. Formam-se intercâmbios de sentidos, que se entrelaçam à cultura e se tornam cenário de expressão, incorporados organicamente à dinâmica da vida e à produção simbólica cotidiana, vista como hibridismo vivo em constante movimento.

Na urbana Belém amazônica, atualmente convivem sedimentações identitárias, que se formam na dinâmica cotidiana das populações ribeirinhas. Elas convivem com o rio e, ao mesmo tempo, em um espaço tão curto, são uma população cuja urbe torna cega de sentidos, de calma e até mesmo de beleza, convergindo para um ambiente extremamente complexo. Cotidiano simples, ao mesmo tempo contraposto, drasticamente, ao cotidiano acelerado construído no centro da cidade.

Belém é a cidade que alimenta contornos gigantescos quando falamos em Amazônia, um fragmento urbano na floresta. Belém é a capital mais antiga da Amazônia, e ocupa o posto de mãe por ter sido a primeira porção de terra em meio à floresta em que os colonizadores aportaram e se fixaram. O lugar sempre despertou interesse de pesquisadores, naturalistas e botânicos, sendo o centro da Amazônia.

A Amazônia não é mais uma simples fronteira de expansão de forças exógenas, nacionais ou internacionais, mas sim uma região no sistema espacial nacional, com estrutura produtiva própria e variados projetos de diferentes atores. A sociedade civil passou a ser um ator importante, tanto na zona rural como na zona urbana, especialmente pelas suas reivindicações de cidadania, que inclusive influem no desenvolvimento urbano.

O artista neste contexto é apontado como aquele ator que atravessa fronteiras de classe, pensa conflitos sociais, afasta-se dos parâmetros de legitimação do gosto burguês ou desobedece todo o cânon exterior – daí sim, um caminho produtivo na arte da Amazônia.

No Pará, como em toda a Amazônia, história e imaginário se entrelaçam, aliadas, se integram como as margens de um mesmo rio cotidiano.

Acredito que a arte do Pará inventa estratégias que atravessam o fazer artístico, e muito do que se vê daqui tem um forte acento conceitual. A alma amazônica visível está no convívio nacional e internacional da produção artística de alguns profissionais que foram influenciados pelo convívio com os artistas João de Jesus Paes Loureiro, Emannuel Nassar, Luiz Braga e Osmar Pinheiro, que na década de 1980 pensaram e utilizaram em seus trabalhos elementos classificados por alguns de “visualidade amazônica”.

Porém, no catálogo do Arte Pará 2005, Herkenhoff faz um alerta aos artistas emergentes, contra a burocratização do olhar e a possibilidade de transformação da visualidade amazônica em parâmetro acadêmico fácil, o que ele classifica de suicídio.

Um fator relevante do desprendimento dessa atitude cultural foi a criação da Fotoativa nos anos 80, que lançou o desafio da busca por olhares próprios, impulsionando o surgimento de artistas importantes, o que revelou a produção audiovisual local de maneira significativa. Os artistas passaram a ampliar seus repertórios, experimentando as pesquisas com linguagens, não ficando restritos, em sua atuação, à região.

Ressalto aqui, dentre muitos outros artistas, Flavya Mutran, Armando Queiroz, Alexandre Sequeira, Paula Sampaio, Walda Marques, Orlando Maneschy, Alberto Bitar, Miguel chikaoka, Mariano Klautau, Luiz Braga, Emanuel Nassar, Guy Veloso, que têm obras em acervos importantes e participam de mostras nacionais e internacionais, além de bienais.

Na geração emergente, devidamente convocados para o Rumos Itaú, Melissa Barbery, Roberta Carvalho, Luciana Magno, Victor de La Roque, Berna Reale, Daniele Fonseca, Keila Sobral, Murilo Rodrigues, Carla Evanovitchi, Lucia Gomes, João Cirilo, Ruma, dentre outros que vêm desenvolvendo seus trabalhos através da bolsa pesquisa Instituto de Artes do Pará, com inserção nos salões locais e nacionais.

As estratégias de inserção e circulação de muitos desses artistas vêm sendo concebidas por curadores e críticos, que legitimam a consistência de seus trabalhos, que a meu ver, retêm um caráter universal.

Acredito que estes profissionais, ao abrirem possibilidades e condições para a paisagem pós-moderna, dão abertura e condição para o olhar amazônico.

Ressalto que o papel dos artistas contemporâneos (especialistas simbólicos), de propor e tornar mais receptivas as sensibilidades dos indivíduos ao mundo audiovisual, requer uma revisão constante da própria produção do saber.

Desta forma, pensar a arte contemporânea enquanto fator social do fenômeno humano é considerar a existência de práticas humanas como um fazer artístico, atravessando campos reflexivos da filosofia, das artes e das ciências.

Reafirmo que aplicar essa reflexão à realidade paraense-amazônica vai muito além das teorias, pois é o pensar de quem habita, de quem mora, de quem é “permanente e contínuo”, que vai ensinar e mostrar o produto imaginário a quem visita, a quem é “circunstancial”. Acredito que o visitante, ao se deparar com as experiências e informações do lugar que tanto povoa a curiosidade de muitos, faz uma nova leitura dessa paisagem, que influencia e age como sinal ativo de trocas simbólicas e aprendizagens entre grupos e culturas diferentes.

A meu ver, a importância da compreensão da arte no processo social da qual faz parte me leva a considerar que, se a arte é uma produção social, ela é uma prática social, e o envolvimento do artista, no desenvolvimento de sua produção, com um conjunto de relações sociais, transforma a maneira de sua produção artística.

Nesse campo de relações, a arte na Amazônia valoriza e transforma, cria um duplo movimento pelo qual o novo surge sem destruir o antigo. Está inserida na paisagem pós-moderna e provoca a dialética entre regionalidade e universalidade, passado e futuro, identidade e multiculturalismo, enfim, uma região em si.

Assim seja!

[Vânia Leal Machado]