Como fazer, com telefone celular, cobertura jornalística em tempo real

Você está ligado, estimado leitor, prezadíssima leitora, que o jornalista e professor Fábio Malini está participando da caravana de divulgação do Rumos Jornalismo Cultural com o laboratório Como Fazer na Internet Coberturas Ao Vivo de Eventos Culturais. Pois bem, no embalo da viagem, ele postou no seu blog um tutorial de como fazer, com telefone celular, cobertura jornalística em tempo real. Seguem abaixo alguns dos toques que a turma tem ouvido pela estrada, disponíveis ao clique de todos:

Tutorial

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A convite do Itaú Cultural, ministrei uma palestra sobre como realizar cobertura multimídia, em tempo real, de eventos culturais. E, provocado pelo Claudiney Ferreira (gerente do Rumos Jornalismo Cultural), publico aqui dicas de como fazer uma cobertura multimídia que explore bem a mobilidade e o livestreaming.


Com a popularização dos smartphones, os telefones celulares tornaram-se equipamentos poderosos para o trabalho jornalístico. Saiba como você pode realizar coberturas jornalísticas aproveitando ao máximo a tendência mais importante deste ano: a mobilidade e o streaming.

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Sem dúvida, uma das características da atual fase da internet é a ampliação de ferramentas que a conecta aos dispositivos móveis de comunicação, principalmente, o celular. A tal “fase da mobilidade” está só no começo. A possibilidade de registro da vida em tempo real tornou-se a própria marca da fase 2.0 da web, o que desencadeia críticas à alta visibilidade da imagem pessoal e, de certa forma, à saturação do consumo da intimidade alheia.

Essa publicização dos fatos cotidianos ocorre porque, de um lado, as pessoas interessam-se em se transformar em perfis de redes sociais, criando para si uma demanda por produção de informação pessoal contínua; e, de outro lado, há uma facilidade de transmissão de dados da máquina do usuário para os sites que hospedam conteúdos na internet. Na prática, através de telefones celulares ou de computadores conectados à internet móvel ou fixa, é possível publicar, em tempo real, mensagens de textos, vídeos ao vivo, fotografias instantâneas, enfim, toda uma gama de conteúdos que são hospedamos diretamente nos respectivos perfis de redes e mídias sociais, que, potencializam o espalhamento desse conteúdo por abrigar e interconectar material multimídia de produções amadora e profissional (youtube, flickr, qik, etc), bem como publicá-lo diretamente nos perfis de sua respectiva rede de amigos.

Não é à toa que esse modo de difusão é chamada de livestreaming, uma corrente contínua de dados/informação que consumimos e transmitimos nos nossos perfis de redes e mídias sociais sem qualquer tipo de interrupção. No modelo da web 1.0, a narrativa online era produzida sob o modelo da página principal (homepage), cujos conteúdos eram editados e de propriedade do autor do site. No modelo 2.0, o usuário não tem “home”. Tem “timeline”. um novo tipo de interface que mostra as últimas atualizações publicadas pela sua rede de amigos, fazendo com que as mensagens individuais sejam apenas uma pequena parte do fluxo d´água que faz movimentar o curso do rio (mídias sociais).

A cada instante, a timeline se atualiza, num processo contínuo de renovação, permitindo ao usuário vivenciar a experiência singular de descarregar e reproduzir uma notícia imediata, com um tempo de espera mínimo. Na concepção radical do design da timeline há a extrema dependência pela produção colaborativa. Se você não tem amigos, não será lido. Se não é amigo de muitos, não tem acesso àquilo que todo mundo comenta. Portanto, as redes sociais operam dentro de uma esfera pública midiática curiosa,pois que o público não é “formado pelo veículo”. Ele é anterior ao veículo. O dna das redes sociais é o autor, na forma de perfil, mas um autor que só existe, se antes, se interconectar com outros autores. Então, nas redes sociais, a priori, não há público, senão uma comunidade de autores.

Unindo comunidades de autores, dispositivos móveis de comunicação, internet 3G, tecnologias de transmissão via streaming e redes/mídias sociais, podemos montar um novo ecossistema para fazer circular notícias e conteúdos multimídia. Minha experiência com transmissão livestreaming de eventos, sobretudo os culturais, permite enumerar alguns passos fundamentais para que você possa aproveitar toda essa nova cena midiática. E atue firme na produção de um jornalismo que se beneficie de valores como mobilidade, instantaneidade, atuação em rede, participação e compartilhamento.

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1. Nunca deixar para fazer testes no dia do evento.

Não inventa de instalar aplicativos novos no seu celular no dia que você vai fazer uma cobertura. Não faça testes com câmeras ou qualquer outra nova tecnologia no dia do evento. Não invente uma nova seção no site. Faça todo tipo de testes antes da data do trabalho.

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2. Crie vários canais na internet, depois integre todos eles a um blog (com domínio próprio).

Tenha um canal no Youtube (vídeo), no Flickr (foto), no Qik (vídeo ao vivo), no Tumblr, no Livestream, no Twitter etc. Mas é só lembrar: todos esses canais devem ter o mesmo nome. E não esqueça: agregue todos eles em um só blog/site, que terá função de reunir todo conteúdo produzido e, assim, dar unidade editorial à sua cobertura. Se puder ($), evite usar sites de armazenagem de blog como Blogspot e WordPress.com. Isso porque ambos limitam a incorporação de recursos de interatividade ao seu site. Mas, se não tens grana para desenvolver o seu próprio site, opte por criar um blog no WordPress.com. Aí embaixo um vídeo explica como fazer isso:

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O que fazer então, caso queira ter endereço próprio na internet?

Primeiro você precisa criar o nome para o seu site. Faz de conta que você queira o seguinte endereço: coberturamobile.com.br. Com isso definido, o passo seguinte é comprar um endereço (domínio) e hospedá-lo em um hosting (uma Locaweb da vida). Em média, você vai gastar uns R$50 reais pelo domínio (o pagamento é anual) e R$80 pela hospedagem (o pagamento é trimestral). Dica: Quando você registra e hospeda o domínio numa mesma empresa online (como a Locaweb), você acaba ganhando o domínio de graça. Outra dica: na hora de criar o endereço do seu site, opte, se possível, pela extensão .com.br, pois ela está mais fixada no imaginário dos usuários. Seguem aí embaixo um vídeo tutorial que explica como hospedar e registrar um endereço na web. É bem simples.

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2.1 Utilize o WordPress como seu gerenciador de conteúdo (CMS).

Com domínio hospedado, você precisará de um programa que cria um layout do site e possibilite publicar na internet. Para isso, o melhor é o WordPress. É a melhor opção, para mim, de CMS no mercado (alguém aqui terá opinião contrária, com certeza). Para facilitar a vida: escolha um hosting que disponibilize o WordPress instalado. Por exemplo, no meu painel de administração, na Locaweb, já há a opção para se fazer a instalação automática do WordPress (saiba mais aqui). Com o WP instalado, é só se dedicar ao mundo dos temas (layouts) e plugins (ferramentas) que o WordPress oferece. Um site rodando em WordPress lhe dará muito mais possibilidades de fazer o seu conteúdo se destacar na web. Mas, importante: se não tens grana, nem um amigo que saca de WordPress, crie um blog e o integre aos seus canais nas mídias sociais!

Para saber como publicar no WordPress, um tutorial bem legal:

WordPress, do básico ao nem tão básico assim… from Rafael Cirolini on Vimeo.

3. Você pode fazer a apuração sozinho, mas jamais deixe de ter um editor remoto ao seu lado.

Gosto sempre dizer que, numa cobertura mobile, as coisas acontecem, ou seja, os fatos chegam sempre até você. Contudo, isso sempre faz cair por terra um lado do seu planejamento. Ás vezes é “aquela hora” de um entrevista, só que uma pessoa com história bem legal aparece do nada e você quer mais que a entrevista agenda seja cancelada. O extraordinário rola numa cobertura de um vento e é legal que ele tire um pouco daquele planejamento rigoroso do trabalho. Contudo, as “coisas só acontecem” para quem prevê, no planejamento, a edição remota.

Não adianta ficar fazendo vídeos, fotos, textos etc etc, se tudo vai para diferentes canais na internet sem uma organização mínima (coisa mais chata é um vídeo ou uma foto não ter títulos, não estarem tagueados, não estarem, num blog, com um resumo ou uma nota etc). Assim, tenha um editor remoto. Enquanto você está in locus produzindo o seu conteúdo em tempo real, o editor estará, em casa ou no trabalho, organizando o material nos canais online. No Youtube, ele titula e tagueia os vídeos. No Qik, idem. No Flickr, faz resumo e título de fotos. No Storify, organiza, em ordem cronológica, o que você e outras pessoas estão a produzir de conteúdo sobre o evento. O editor cuida do blog e das redes sociais. Se tens mais recursos, tenha dois editores: um para cada uma dessas funções.

4. Tenha um celular com conexão 3G, mas atenção para alguns detalhes.

Hoje investir num smartphone é fundamental para quem quer atuar com cobertura jornalística móvel. Mas não é qualquer um smartphone. É preciso ter um com perfil mais multimídia e que ative, com muita facilidade, as suas redes sociais, compartilhando conteúdos que você produza com agilidade. Há vários modelos no mercado. Mas é preciso estar atento a alguns aspectos:

(1) O celular precisa ter conexão à internet 3G, se puder, adquira um pacote ilimitado. Ou: compre um chip exclusivo de acesso à rede destes que utilizamos com o modem espetado nos nossos laptops. Por quê? Se vc faz transmissão com o pacote de dados com o chip do seu número de telefone, perceberá um grande inconveniente: se alguém ligar para ti no momento que está a fazer um vídeo ao vivo, sua transmissão será interrompida. Porque a chamada terá prioridade, afinal, você tem um telefone, e não um câmera. 🙂 Se você troca o chip do seu telefone, por um de conexão 3G, ninguém vai ligar para ti, mas, pelo menos, não vai ter problema de interrupção daquela sua “grande” entrevista. Resumo: tenha dois telefones celulares. Um para telefonar, outro para produzir conteúdo.

(2) não adianta ter um celular com câmeras muito potentes, porque elas tornam os arquivos mais pesados. E arquivo pesado significa lentidão na transmissão para a internet, principalmente, levando em consideração que os serviços 3G das operadoras telefônicas, por enquanto, não são nada eficientes). Dica: um smartphone com câmera de 5 megapixels já seve para ti aqui no país.

(3) O celular precisa possibilitar acesso à internet via wi-fi. Então, não esqueça deste detalhe na hora da compra do seu equipamento. Afinal, em muitos lugares, o sinal de internet propicia uma velocidade maior que o seu chip 3G. Aliás, se puder, leve contigo sempre um roteador de internet sem fio, porque se há acesso à internet banda larga, você pode plugar seu roteador e propiciar que mais pessoas façam a mesma coisa que você. Quanto mais conteúdo na rede, mais possibilidades de compartilhamento e mais abrangente fica sua cobertura. Afinal, a atenção para um fato está diretamente relacionado à quantidade de pessoas que produz material jornalístico sobre ele. Não tenha medo da competição. Na internet, quanto mais gente falando de um assunto, mais tráfego gera para os seus.

(4) Hoje há dois sites que gosto de usar para fazer transmissão de vídeos, em tempo real, para a internet: Qik e Bambuser. Ambos oferecem a lista de modelos de telefone celular que é compatível com suas plataformas. O link dessa lista está aqui e aqui. Não adianta comprar um celular bacana se ele não possibilita fazer vídeos ao vivo na internet.

(5) Para quem não conhece, há um blog fantástico com resenhas sobre modelos de smartphones. É o Garota sem Fio. Com certeza, ele vai reduzir suas incertezas e ajudar na sua decisão de compra.

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5. Qik, Ustream ou Bambuser, ferramentas que auxiliam no streaming de vídeos via celular. Como instalar e usar?

Qik, Ustream ou Bambuser são ferramentas que permitem que você transmita vídeos e tenha um canal de comunicação na internet. Todos se integram ao Twitter e Facebook (ou seja, você pode se logar em um dessas contas e replicar os vídeos automaticamente . É baixar o aplicativo para o seu celular e apertar o botão gravar (broadcast). De acordo com o modelo do seu celular, haverá mais ou menos serviços. No iphone, você grava em preto e branco. No Galaxy S (roda Android), você faz chat com vídeo com muita facilidade e pode gravar um vídeo e transmiti-lo depois para o Qik. No Nokia n85 (roda Symbian), nada disso, mas em compensação a qualidade de som/imagem é muito melhor que a dos primeiros. Todos os três permitem que, após a transmissão ao vivo,

Defina o sistema que roda no seu celular: Symbian, Iphone ou Android. Depois, o passo seguinte é instalar um dos (ou os) três aplicativos. Para instalar o Qik no seu telefone, é só clicar aqui. Para o Bambuser e o Ustream, o processo é idêntico.

Algumas dicas fundamentais para aquele momento que você está frente a frente com os fatos que você irá registrar com seu celular:

(1) Para as entrevistas em locais ruidosos (eu já fiz num sambódromo, então imagina a barulhada): Aproxime o celular da sua boca para você não precisar de gritar na hora de fazer a pergunta. E, quando o entrevistador começar a responder, aproxime o celular numa distância de 50cm, no máximo. Abuse de closes e bigcloses em entrevistas nestes ambientes. Já em ambientes mais silenciosos, você pode aumentar o plano da imagem, mas a regra da hora de sua pergunta é a mesma ara ambientes ruidosos.

(2) Titule, sempre que possível, o vídeo. Ou antes ou depois de apertar o Rec, mas titule. Quando as coisas acontecem de modo rápido, peça a alguém, remotamente, que faça isso para você. Ou mandando torpedo com o título ou ligandodiretamente para um “editor remoto”, que terá a missão também de taguear o conteúdo (isso ajuda a busca para o usuário e para os motores como o Google).

(3) Na hora da gravação, teste perspectivas diferentes. Apontar o celular numa mesma altura é o básico, mas com o tempo, se aventure em ângulos alternativos, filme metade do rosto do entrevistado, desloque o celular para cima ou para baixo, enfim, seja um pouco mais criativo. A imagem no vídeo é constituída de diferentes planos (que muda em função da distância da câmera em relação ao objeto a ser filmado). Para quem não sabe nada sobre os tipos de planos e ângulos de imagem, tem um vídeo aqui sobre o cada plano e ângulo significa.

(4) Não dê zoom na hora de capturar a imagem. Infelizmente,as câmeras de celular não funcionam muito bem com o zoom. É melhor aproximar a câmera do objeto, fazendo closes ou bigcloses.

(5) A maior das dicas: tenha baterias de sobra. Três, no mínimo. Uma bateria dura pouco. E, em muitos casos, você não terá como recarregá-las. Uma bateria dura aí em torno de 25 minutos de gravação. Isso porque gasta-se muita bateria no celular para capturar as imagens, mas, sobretudo, para enviar/salvar o vídeo para o seu canal de comunicação na internet.

(6) Não há problemas de duas linhas de telefone utilizarem o mesmo perfil. Aliás, é corriqueiro ter mais de um celular cobrindo determinado evento. Quanto mais, melhor.

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3. Não existe profissional multimídia. Dedique-se a uma linguagem online.

Não inventa de ser “multimídia”. Especialize-se em uma linguagem. Se gostas do vídeo online usando o celular, faça só isso lá com seu aplicativo Qik. E tenha com você alguém para fotografar mais (uma dica legal, é fotografar usando aplicativos como Instagram – se usas iphone; ou Vignette – se usas Android). Chame alguém para fazer a twittagem do celular. E um Outro para filmar com handycam digital (que tal fazer os filmes e depois enviá-los para o Youtube? Não precisa fazer coisas ao vivo o tempo inteiro). A mobilidade não acontece somente por causa do celular. Há equipamentos digitais leves e de ótima qualidade.

6. Se puder, agregue à cobertura móvel o streaming feito a partir de câmera de vídeo profissional ou amadora: um tutorial

Você pode agregar a uma cobertura móvel, as ferramentas de streaming de vídeo com câmeras digitais. Faz de conta que irás fazer a cobertura de um show, por exemplo. Seu lance será twittar o show e transmitir ao vivo, em vídeo, para a internet. O sucesso do trabalho dependerá, é claro, da taxa de upload de sua conexão com a internet. Além disso, também dependerá do equipamento que terá em mãos. Se quiser pode baixar aqui um Tutorial, feito pelo Igor Chagas, do Labic (laboratório que coordeno na Ufes), que ensina como fazer transmissão usando o Livestream. Ou através de um programinha instalado no computador, chamado VidBlaster, que possibilita trabalhar com múltiplas câmeras. É um programa proprietário com custo de licença de U$ 700.

O legal de utilizar streaming com câmeras profissionais (ou digitais amadoras) é que você pode agregar outras possibilidades jornalísticas a uma cobertura móvel, como por exemplo a criação de um estúdio para gravação de entrevista. Junte a isso o fato de, uma vez gravado, o ao vivo permanece na internet, para que um usuário possa (re)assistir o vídeo.

PS: vamos começar a estudar o Landell, que é software livre, para utilizar em transmissões.

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7. Há o tempo do acontecimento e o tempo da repercussão dele

Não banque o consumista. Com um celular na mão, você é capaz de produzir muito conteúdo. Combine com seu editor para não publicar todos eles no seu blog ao mesmo tempo. Se, por exemplo, estás a fazer a cobertura de um evento que durará dois dias, podes deixar alguns conteúdos para ser publicados naquele período de tempo que não acontece nada. Isso é uma dica importante para manter seu público sempre abastecido de conteúdo exclusivo. Se o evento acontece de 9h às 18h, utilize o período de 18h01 às 8h59 para repercutir seus próprios conteúdos. Isso significa que o tempo real não é somente o tempo do acontecimento em si, mas a capacidade de duração dele para além do seu tempo. As pessoas toleram receber, via redes e mídias sociais, mais conteúdos até, no máximo, uns três dias após o evento. Mas em doses homeopáticas.

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8. Feche a cobertura com uma bela retrospectiva multimídia

Faça um último post com o melhor daquele evento. Embede vídeos, galerias de fotos, áudios, tweets, comentários, enfim, toda a gama de conteúdo que tens para fazer uma retrospectiva do que melhor ocorreu no evento que você fez a cobertura multimídia. Depois disso, feche o barraco, diga “até a próxima, pessoal”, e mantenha o site no ar. Uma dica legal é usar o Storify para isso.

[Fábio Malini]

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Jornalismo Cultural em 3 tempos

Um. Logo mais, no CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis, acontece o laboratório Em Busca do Personagem, com o jornalista e escritor José Castello. Das 15h às 18h30. Voltada a profissionais e estudantes de jornalismo, a atividade oferece uma reflexão sobre o que deve ser um olhar singular para o jornalista cultural — livre de clichês, do óbvio e do mero exótico. A definição do projeto, a organização da pauta  e as técnicas de entrevista são alguns dos tópicos abordados.

Dois. Amanhã, ainda na ilha, no mesmo horário e local, é a vez do jornalista e professor Fábio Malini capitanear o laboratório Como Fazer na Internet Coberturas Ao Vivo de Eventos Culturais. A proposta é a criação de uma web TV ao vivo para que os participantes exercitem a produção desse tipo de cobertura de eventos culturais. Toda feita em streaming (via celular e twitcam). O Laboratório se divide em duas fases, «como fazer a cobertura ao vivo de eventos culturais pela internet» (conteúdo teórico e técnico, mostrando algumas ferramentas de fácil acesso que possibilitam a transmissão ao vivo de conteúdos para a rede), e «ao vivo» (atividade prática composta de produção de textos, vídeos e fotos, enviando o material para a rede).

Três. Sexta-feira, dia 06, no Museu da Imagem e do Som de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, das 14h às 17h30, o escritor Luiz Ruffato conduz o laboratório Jornalismo Cultural e Literatura. A proposta é discutir pontos convergentes e divergentes entre Jornalismo Cultural e Literatura. O que transforma a história de um personagem real em reportagem ou peça de ficção? O que há de romanesco no cotidiano? Em que momento o texto ganha uma transcendência e transforma-se em literatura? É possível escrever uma reportagem a partir de uma peça de ficção e uma ficção a partir de uma reportagem?

E você, vai perder?

Jornalismo Cultural aqui & agora

Agora mesmo, imediato leitor, acontece em Belém o laboratório do Rumos Jornalismo Cultural “Como fazer na internet coberturas ao vivo de eventos culturais”, conduzido pelo professor Fábio Malini. Nas dependências do Instituto de Artes do Pará, e aí na sua tela: é só acompanhar o streaming da conversa.

Fábio Malini é doutor em Comunicação, professor de jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo e ativista do Fórum de Mídia Livre e da Universidade Nômade. Também é consultor do Onda Cidadã – Mapeamento Nacional da Comunicação Autônoma para o Itaú Cultural. Twitter – @fabiomalini.

Expedição musical à terra de Makunaima

[Expedição do Rumos Música, intrigado leitor, de seminário e descobertas, de conversas e entusiasmos de Roraima relatados pela batuta verbal de Israel do Vale: o jornalista-dj sambacana e ubíquo que além do texto e das fotos também mandou o recado: “só quero ver se alguém vai ter saco pra encarar essa verborragia toda! quiserem dividir este épico em capítulos…”. O leitor eu sei que concordará comigo que é fácil o fôlego pra atravessar o caldo desse texto, que é que nem roda de samba, pode ir até o amanhecer que não cansa, e lá vai:]
 

Expedição musical à terra de Makunaima

Por Israel do Vale

Talles Lopes, Makely Ka, Roraima e o Rumos na mira de Israel do Vale

Passei a maior parte da minha vida chamando Roraima de “Rorãima”. Fruto direto das aulas de geografia no ginásio e no colégio, de quando o hoje estado ainda era território nacional.

Só há poucos anos é que fui descobrir que a pronúncia certa era “Roráima” –o que a previsão do tempo no “Jornal Nacional” ajuda a reforçar um pouco por dia. [“O Jornal Nacional já aprendeu; só falta o resto da mídia…”, me diria um dos prestativos roraimenses que nos acompanharam no jantar que se seguiu às mesas do Rumos Música, acolhidas pelo Sesi local].

Estava com medo de falar errado lá. Já pensou que deselegância? Cometer uma gafe dessas com os pés na capital do estado –e na frente dos roraimenses? Me policiei durante semanas! E sempre que comentava com alguém, ressaltava a falta de “til”.

É sempre difícil, leviano até, tentar decifrar um lugar por uma passagem relampejante, de dois/ três dias, como foi a nossa. Mas não é a toda hora que se pode estar na “única capital brasileira inteiramente localizada no hemisfério norte”, como gostava de dizer este nossos anfitrião [como é o nome dele mesmo, Pereira? Aquele gente-finíssima, macuxi, que levou vocês à Feira do Produtor…].

Foi bom tocar nesse ponto, aliás. Sempre achei que um dos lugares emblemáticos de qualquer capital é o seu mercado municipal. É lá que se pode ter chance de entender mais rápido os hábitos alimentares da região: o que é produzido localmente, do que as pessoas gostam, o que não deixam faltar no dia-a-dia.

A cor da Feira do Produtor

A Feira do Produtor cumpre esse papel em Boa Vista. É um mercado simples, entre o bagunçado e o aconchegante, com dois prédios vazados, conjugados, de um único piso. É um desfile de cheiros, texturas, cores e sabores.

Jambu bem de perto

Vendida em frascos minúsculos [pelo trabalho e o ardor na pele que o processo causa…], a jiquitaia [pimenta seca, moída até tornar-se uma poeira vermelha, que gera um furor de quentura sem par no ser humano…] e os maços de jambu [aquela verdura que anestesia a língua, típica dos pratos de tacacá, no Pará] dividem as bancas dos feirantes com a palha trançada das peneiras quadradas ou dos tipitis [espécie de espremedor comprido, torcido para secar a mandioca moída, no processo de feitura da farinha, de tecnologia indígena].

Os sacos de farinha chamam atenção especial, pela variedade, o frescor e a fartura. “É a melhor que vocês já comeram”, diria o advogado de defesa que atuava na mesa do bar em favor de um pedido de Paçoca, a mistura de farinha com pedacinhos de carne de sol socados no pilão, um dos pratos típicos de lá – e muito comum também em estados do Nordeste.

A presença da Paçoca talvez nos ajude a enxergar um pouco melhor a conformação de Roraima, um estado formado por 15 municípios, com uma população equivalente à da cidade de Florianópolis, inteiramente dependente de recursos destinados por Brasília até deixar de ser território federal em 1988. Não é difícil imaginar o tanto de gente de fora que a exploração de ouro e diamante deve ter atraído aos garimpos, nas décadas de 1970 e 1980.

O passado recente como território também deixou suas marcas. Já da janela do táxi, chama atenção o número de repartições públicas e as estruturas ligadas às Forças Armadas no caminho entre aeroporto e hotel.

Mas é preciso relativizar [olha o risco da avaliação apressada aí…]. O hotel que nos hospedou fica num bairro de alta concentração de prédios públicos, nem todos federais, às margens da “maior praça do país, com 1km de circunferência” – nos diria, orgulhoso, o taxista.

Estava também a dez minutos de caminhada do centro comercial, rota natural para se chegar ao largo e caudaloso Rio Branco, no entorno de um acanhado mas charmoso conjunto arquitetônico com prédios históricos lindos como o da antiga Matriz de Nossa Senhora do Carmo [única igreja de origem germânica na Amazônia], restaurada há três anos.

Matriz de Nossa Senhora do Carmo, a própria

O noticiário do dia do nosso encontro chamava atenção para a visita de um grupo de jornalistas do Sudeste, convidados pelo governo a conhecer as atrações turísticas e belezuras naturais da região.

Sinal do esforço do poder público para que este ponto de interrogação no cocoruto do mapa do país seja minimamente [re]conhecido Brasil afora –inclusive como detentor do marco mais extremo ao Norte do país: o Monte Caburaí [e não Oiapoque, no Amapá, como a gente aprendeu torto na escola também…].

Eliakin Rufino: cantor, compositor, selecionado e anfitrião do Rumos em Roraima

Eliakin Rufino foi nosso principal anfitrião lá. Um dos selecionados da edição mais recente do Rumos Música, o cantor, compositor, poeta e sábio [para quem “sexo diário continua sendo o melhor remédio”, como canta numa de suas músicas] é agora também professor de literatura roraimense na universidade federal de lá. Vai dedicar-se sobretudo ao que defende [de boca cheia, com o sorriso largo habitual] como literatura indígena.

O que não falta é lastro pra isso. É de Roraima um dos grandes ícones do imaginário brasileiro, perpetuado pela literatura de Mário de Andrade de forma “diversa” — em nome da liberdade poética, digamos…

Me refiro ao “herói sem caráter” Macunaíma – ou, na origem, Makunaima, pronunciado “Macunáimã”. O relato do etnógrafo alemão Koch-Grünberg, alçado a clássico na rapsódia escrita [em uma semana!] por Mário, tem fonte na tradição oral dos índios macuxi.

Boa Vista é uma cidade amazônica atípica, aos olhos do brasileiro médio. A Amazônia, lá, não é uma “floresta densa” [como de resto, nem a capital amazonense é…]. É uma cidade incrivelmente plana, com vegetação de savana. E abafada, muuuito abafada!

A capital roraimense fica há cerca de duas horas de carro da Guiana [inglesa] ou da Venezuela. Rufino nos ajudou a enxergar as influências indígena e caribenha na cultura local. Sua própria formação musical, inda nos idos de menino, se daria pelas rádios de países do Caribe, captadas em ondas curtas.

O jornalista Fabio Malini e o cantor e compositor Maurício Pereira levam um lero

Falando nisso, a música – que foi, afinal, o que reuniu ali o “pauli[s]taliano” Maurício Pereira, o uberlandense Talles Lopes, o piauiense-mineiro Makely Ka, o capixaba Fábio Malini, o próprio Eliakin e eu – também ofereceria ótimas surpresas nessa viagem!

Os músicos Talles Lopes e Makely Ka dizem como é

A mim foi especialmente encantador descobrir e conhecer a cantora Euterpe, dona de um [recém-lançado] disco que, confesso, não só me surpreendeu, mas causou uma ótima impressão – pelo seu timbre de voz marcante, mas também pelos arranjos suingados [valorizados pelo bombardeio de metais] e o sotaque amazônico, vitaminados em Belém pelo produtor e arranjador Adelbert Carneiro e a percussão do Trio Manari, com participação das guitarras do novo “Midas” da música paraense, Chimbinha, o homem por trás do grupo Calypso.

Euterpe e o namorado, o professor e jornalista [de coração mineiro…] Avery Veríssimo, ainda me deram de presente um giro por Boa Vista, a caminho da festa de aniversário [animadíssima, mesmo sob aguaceiro] de uma amiga. Embora haja muita gente de fora na cidade, é gostoso notar os traços indígenas [caboclos, mamelucos] na morenice que domina os rostos, aqui e acolá.

Enfim, Roraima me pareceu um estado intrigante e instigante, que demanda mais tempo para decifrar. Um Brasil de fora das rotas, de farta ascendência indígena [que o diga a disputa em torno da reserva de Raposa Serra do Sol], e com um pé no Caribe diferente do que me pareceu o do Pará, por exemplo.

Um lugar que merece imersões. Que eu adoraria [e espero!] um dia fazer. Sem pressa. E com os discos da Euterpe e do Eliakin rodando no CD player do carro, claro!

Rumos na Intercom Sudeste

Esse é pra avisar o seguinte: começa hoje o encontro regional da Intercom Sudeste, na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória. Intercom é Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, e nesses últimos meses do semestre acontecem os encontros regionais, no maior clima de esquenta pro encontro nacional, em setembro.

E você com isso, curioso leitor? É que onde tem um agito, lá está o Rumos, agitando. Logo mais, no começo da noite, tem duas mesas de que participam não só os gerentes dos núcleos Diálogos (literatura e jornalismo) e Música, Claudiney Ferreira e Edson Natale, mas colaboradores de longa data e longo alcance, como os jornalistas José Castello e Eliane Brum, e o escritor Luiz Ruffato. O convite aliás foi feito por outro parceiro, Fabio Malini, coordenador da Intercom Sudeste e consultor de outro projeto do Itaú Cultural, o Onda Cidadã. E toma lá:

Mesa redonda “Como ultrapassar a fronteira entre literatura e jornalismo”
Cinema Metrópolis • 19h
José Castello { escritor, jornalista e crítico de literatura }
Luiz Ruffato { escritor e jornalsta }
Eliane Brum { escritora, jornalista e documentarista }
Claudiney Ferreira { Itaú Cultural, jornalista }

Mesa redonda “Cidade e Cultura – descentralizando as políticas culturais” – Rumos Música
Auditório do Centro de Artes • 18h30 • Cemuni IV

Fabio Malini (UFES / Coletivo Multi)
Pablo Capilé (Fora do Eixo)
Fabinho Carvalho (Manguerê)
Edson Natale (Itaú Cultural)

E dá pra assistir em tempo real, distante leitor, a transmissão em vídeo da programação. Ou acompanhar no twitter a cobertura colaborativa do evento. Só não dá pra perder.

Que tal cair na estrada com a gente?

Classificados Rumos: para quem quer mergulhar na expedição

Classificados Rumos: para quem quer mergulhar na expedição

Ainda há tempo, e há meios mais fáceis, marinheiro leitor, especialmente para quem estiver em Maceió ou Floripa nesse comecinho de semana. Confira:

Maceió, AL: 27 e 28 de abril, Sesc Maceió/Faculdade Integrada Tiradentes

27/04, das 9h30 às 18h — Oficina Em Busca do Personagem: Um Olhar Singular, com José Castello

28/04, das 9h30 às 18h — Oficina Blogs, Estilos Textuais e a Construção da Reputação em Rede, com Fábio Malini

Florianópolis, SC: 27 e 28 de abril, Universidade Federal de Santa Catarina

27/04, às 19h — Palestra Processos de Criação, com Ronaldo Entler

28/04, das 14h às 18h — Oficina Espetáculos Multimídia, com Roberto Moreira

28/04, às 19h — Palestra Experimental no Audiovisual, com César Guimarães e Roberto Moreira

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Crédito da foto: Claudiney Ferreira, em passagem por Vitória

Meu nome é Cacilda

Há muito ainda que se ler nas linhas do mapa traçado pela caravana Rumos. Muita vida entranhada nessas siglas, sabe como é? AM. RR. CE. MA. SP. AP. RN. RO. PA. PB. PE. Muita água de rio. Muita vista pro mar. Muita vivência.

As histórias chegam aos poucos. Correria de viagem, pouco sono, uma conexão que cai aqui e ali. Tudo dá vontade de saber o que será que ainda vai acontecer que possa ser tão grande quanto o que já está acontecendo e aconteceu. Aí acontece.

Aqui, ou lá em Porto Velho. Lê só o que Fabio Malini escreveu. Lê o retrato que Eliane Brum enviou.

Meu nome é Cacilda

[Eliane Brum]

Qual é o sistema (da casa)?, pergunta Marcelo Monzani para a mulher grande, morena e maciça como tronco de árvore saudável que nos recebeu no restaurante Assado na Brasa, em Porto Velho, Rondônia, para o almoço de domingo.

Ela olha bem para nós e diz, sem sorrir: “O sistema é o seguinte. Meu nome é Cacilda”. 

Agora é assim. Se alguém me pergunta qualquer coisa, do aquecimento global às mechas (loiras) do meu cabelo, eu tasco: “O sistema é o seguinte. Meu nome é Eliane”. E era isso.

Cacilda depois abre um sorrizão mais largo que o rio Madeira, que não fecha nunca mais. Tem um bonezinho de couro roxo na cabeça e flores pintadas nas unhas das mãos. É um doce. Chama Claudiney Ferreira de “gatinho”. Acha meus três companheiros de viagem na caravana do Rumos, aliás, “muito lindos”. Esfrega seu braço volumoso no meu para pegar um pouco do que ela chama de minha sorte (e eu chamaria de outra coisa).

Ela acredita, há testemunhas para comprovar, que o chapéu de palha colorida do Claudiney dá um toque de distinção a ele. E quando Fabio Malini estranha o tratamento felino, ela troca “gatinho” por “boneco”.

Essa mulher generosa humanizou Porto Velho, uma cidade tão despida de tudo e também de árvores que parece meio irreal, a carne meio engolida pelo concreto. Misturada à comida – muita e variada, com destaque para o “feijãozido” (feijão com cozido) -, Cacilda nos alimentou com alguns quilos de calor humano, sem economizar calorias.

É feita daquela cepa dos brasileiros migrantes, que carregam o Brasil na sola dos pés que andam. Cacilda, porém, não quer mais andar. Ela é “filha de baianos, mas se criou no Acre”. E de lá veio para Rondônia, dez anos atrás, de onde pede ao céu de nuvens pesadas para nunca mais sair. “Tive uns probleminhas por lá”, explica, coçando a cabeça, o olhar vago por um instante. Pergunto sobre “os probleminhas”, ela finge que não ouviu. E vai atender outros “gatinhos”.

Ainda volta para dizer que é feliz. “Faça o que você ama que nunca se cansará”, recita. Cacilda descobriu sua vocação. Ela ama ser garçonete numa pequena churrascaria de esquina dessa cidade desmatada de um tudo. Não por acaso, é o único restaurante com árvores na frente.