Ação e Reações: entrevista com Leandro Araújo

Você ainda não sabe, mas quando na próxima semana for ao Itaú Cultural conferir as performances do On_Off – Experiências em Live Image, quando pintar por lá na quinta-feira para a apresentação do Reações Visuais, da dupla L_ar e Lise, você ainda não sabe, eu dizia, mas estará diante de uma obra em progresso, a meio caminho do processo de desenvolvimento dos trabalhos selecionados pelo Rumos Arte Cibernética 2009.

Melhor dizer de uma conversa em processo, como me diz Leandro Araújo (o L_ar do parágrafo acima) em seu estúdio na Avenida Afonso Pena, 941 – Belo Horizonte, Brasil. Um dia após o sonolento Brasil x Portugal, estamos na sede do Superfície — escritório de arquitetura e design digital que o artista toca ao lado do sócio Roberto Andrés. Nós estamos diante do computador onde Leandro me mostra alguns de seus trabalhos e diante do horizonte mais famoso do país, enquanto eu estou diante da ênfase de Leandro em que não se trata bem de uma obra em andamento, mas de uma discussão. Que de 2009 pra cá tem fundamentado uma série de obras nomeadas Reações Visuais, como a que apresenta na próxima quinta, como a que resultará do Rumos Arte Cibernética no fim deste ano.

Reações Visuais é uma tradução de sons da cidade em imagens, retratos compostos a partir de ruídos, “paisagens sonoras traduzidas em imagens através do uso de software-arte”, sintetiza Leandro, nomeando os ingredientes a partir dos quais compõe a série de obras: software-arte, espaço urbano e paisagem sonora.

A primeira intervenção da série ganhou corpo em julho do ano passado, quando ele e o músico Daniel Nunes (o Lise do primeiro parágrafo) levaram ao Palácio das Artes, em BH, uma performance durante a qual sons da cidade eram manipulados musicalmente por Daniel, e visualmente por Leandro. Os sons haviam sido captados por ele em quatro pontos do centro da cidade – Rua Guaicurus, Praça Sete, Parque Municipal e Viaduto Santa Tereza –, e na performance foram a matriz para uma experiência audiovisual de tradução do espaço urbano via tecnologia e arte (confira os vídeos no canal do artista no youtube).

Algumas das paisagens sonoras voltaram a seus locais de origem: a rua. Por 15 dias, obras de Leandro resultantes da manipulação dos sons da cidade foram espalhadas nos pontos de ônibus da Avenida Afonso Pena. Um ano depois, mais uma cidade receberia a intervenção da dupla: em junho deste ano L_ar e Lise desembarcaram em São Luis (MA), para uma performance na Praça Nauro Machado, realizada a partir de sons captados no Centro Histórico da cidade.

Os retratos do espaço urbano compostos por Leandro Araújo resultam de uma deriva pelas cidades, que permite ao artista deixar o acaso trabalhar. Captar os sons, cartografar a paisagem sonora da cidade, e então criar um software que a traduza em imagens, desenvolvido para cada tipo de som captado, para cada tipo de local. “Captei muita conversa, além dos sons dos ônibus e do comércio. A paisagem sonora conta muito da cidade. Há sempre as pessoas debaixo da camada de poluição sonora. É ligar o gravador, fumar um cigarro, tomar um café e ouvir a cidade”.

Em 2008, o projeto (a etapa apresentada no Palacio das Artes e exposta nos pontos de ônibus) recebeu o Prêmio Interações Estéticas (FUNARTE), e ainda se desdobrou numa série de oficinas realizadas com alunos de 10 escolas da rede municipal de ensino, em parceria com o Centro de Convergência de Novas Mídias da UFMG.

“Ali já estava colocada a discussão, mas não o trabalho que estou desenvolvendo para o Rumos”, ele me diz, de volta à ênfase do segundo parágrafo. Nesse meio tempo, Leandro realizou quatro viagens a São Paulo para mapear os sons da cidade, na deriva que antecede a pesquisa de possibilidades de intervenção. “É uma etapa menos objetiva, mais flutuante. Tudo indica que dessa vez o resultado vai ser uma intervenção, não uma performance”.

Foi em 2003 que começou a mexer com arte cibernética, desenvolvendo softwares e projetos artísticos no LAGEAR – Laboratório Gráfico para Experimentação Arquitetônica, da UFMG, quando era aluno de arquitetura da universidade. De lá pra cá teve projetos selecionados pela Funarte, Finep, Ministério da Ciência e Tecnologia, Rumos Itaú Cultural e pelo Instituto Sérgio Motta de Arte e Tecnologia, expôs no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE), no Centro de Pesquisas em Comunicação da Benetton (Fabrica, Itália) e por aí vai.

De Belo Horizonte para o mundo e de volta a BH, Leandro se entusiasma com o que identifica como uma “boa conjunção de festivais, gente que produz, e discussão teórica” na cidade. Ainda assim, é claro para ele o caráter marginal da arte cibernética em relação aos demais campos criativos. “A arte digital ainda está numa fase de exploração, como os irmãos Lumière estavam no início da exploração do cinematográfico. As tecnologias novas ainda são o foco de grande parte do que se produz como arte cibernética”.

Com a apresentação do On_Off (“a mesma que fiz em São Luis, acrescida de uma nova peça sobre São Paulo”) pela frente, e a etapa seguinte da discussão do Reações Visuais em desenvolvimento, Leandro Araújo tem o futuro pela frente – o seu e o da arte cibernética.

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A Anpoll e o Rumos Literatura

Salve leitor, tá ligado na Anpoll? Quer dizer, na Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística? Pois é. Te apresento a mais nova parceira do Rumos Literatura, que — você tem acompanhado por aqui — vem fazendo bons amigos, hein? Pois bem: a associação comemora 25 anos de existência com a realização de seu 25º encontro nacional, o ENANPOLL. É de 01 a 03 de julho, na Faculdade de Letras da UFMG, em Belo Horizonte, sede da Anpoll, e quem estará lá, com folder, banner, garganta e voz, divulgando o edital de Literatura e, é claro, o Rumos em geral? A intrépida rumeira, heróica desbravadora de congressos e quetais, Babi Borghese.

Fundada em Brasília em 1984, a Anpoll é representante política dos Programas de Pós-Graduação em Letras e Linguística a ela associados. Ela atua junto às agências de fomento e aos fóruns responsáveis pelas políticas de pesquisa e pós-graduação no país, e atualmente possui 93 programas filiados, e 32 grupos de trabalho (famosos GTs). E lá vamos nós!

A semana no Rumos

E o rumo da semana, amigo leitor, amiga leitora, que a segunda-feira chegou e promete. Os outros dias é que cumprem: amanhã e depois, em Aracaju, rolam dois mini-cursos do Rumos Literatura. E na própria quarta, em Belo Horizonte, corre boa a conversa com o dramaturgo José Fernando Peixoto Azevedo, no seminário de divulgação do Rumos Teatro, que já chegou, como você vê, chegando. Não marque touca, não perca a hora, que ainda em abril tem Cuiabá, Boa Vista, Palmas e Teresina, tem Rumos Pesquisa, Teatro e Música correndo o Brasil. Não tá sabendo? Pois fique. E se ligue que é segunda-feira, e segunda é dia de Rumos da Música.

A hora e a vez das Artes Cênicas

Enquanto em Aracaju já dá pra se inscrever nos mini-cursos do Rumos Literatura, em Porto Velho, Goiânia e Belo Horizonte é só chegar, chegado leitor, que inscrição nem é preciso. Está dada a largada pros seminários de divulgação do recém-nascido Rumos Teatro, que ganham o Brasil a partir desta semana. A itinerância começa nesta quarta, dia 7, com a programação que você lê abaixo.

Ainda em abril, também acontecem encontros em Palmas e Teresina, e em maio é a vez de Natal e Curitiba receberem a turma das artes cênicas. Não mude de canal nem troque de estação, que novidades vêm em breve. Confira as primeiras coordenadas e bom começo de semana:

7/04 – Porto Velho – Sesc Rondônia –  Seminário com Kil Abreu
Av. Presidente Dutra, 4175 – Bairro: Pedrinhas.
CEP: 76.801-327 – Porto Velho/RO.

Sobre o seminário. O contexto: os diferentes modos de produção, o teatro de grupo e a pesquisa artística na cena contemporânea. Definições de “grupo” e “pesquisa”, segundo a produção brasileira atual. Retrospecto: breves apontamentos sobre o teatro de grupo no Brasil. Questões: a criação compartilhada e os intercâmbios artísticos. Pesquisa, formação e pensamento em bases colaborativas. 

09/04 – Goiânia – Centro Cultural Martim Cererê –  Seminário com Fernando Villar
Rua 104-F Q.F18 Setor Sul Goiânia Goiás

Sobre o seminário. No contexto da diversidade teatral super e hipermoderna, buscaremos aproximações conceituais e estéticas sobre teatro de grupo, pesquisa artística e processos colaborativos no Brasil, sem perder uma conexão com poéticas contemporâneas internacionais, permeadas pelo hibridismo e pela abertura de diferentes formas e frentes de pesquisa em arte. Rápida perspectiva histórica com alguns grupos de teatro que pesquisam, publicam e/ou performam suas produções no Brasil, Estados Unidos e Europa. Pesquisa em artes cênicas no Brasil dentro e fora do campus universitário.
 
14/04 – Belo Horizonte – Palácio Das Artes –  Seminário com José Fernando Peixoto Azevedo
Avenida Afonso Pena 1.537, Centro, CEP: 30130-004 – Belo Horizonte – MG

Sobre o seminário. A especificidade do “teatro de grupo” está no modo como esse teatro participa da história geral do teatro brasileiro, e é bem possível que tal inscrição se revele na trajetória dos grupos, em suas formas de organização e de produção. Uma estética teatral se esboça na produção contemporânea e algumas questões se apresentam: o que define um grupo, e o teatro de grupo? Como especificar seu trabalho e sua investigação artística? Trata-se de um movimento? Quais suas formas de permanência e intercâmbio? Há uma noção de forma que o abarque? E que teatralidade se produz aí, no contexto de uma sociedade do espetáculo?

Sobre os ministrantes

Fernando Villar é diretor, autor, encenador e performador. Graduado em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (1983), pós-graduado em Direção no Drama Studio London (1991) e Ph.D em Teatro na University of London (2001). Professor do Departamento de Artes Cênicas e do Mestrado em Arte da Universidade de Brasília.

José Fernando Peixoto é dramaturgo e diretor do Teatro de Narradores, e professor da Escola de Arte Dramática da USP. Doutor em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da USP. Foi editor da Revista Camarim e tem artigos publicados, entre outros, nas revistas Reportagem e Vintém.

Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador de teatro. Ex-diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo. Compõe o júri dos prêmios Shell e da  Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). É Curador do Festival Recife do Teatro Nacional.