O Acre e as Artes Visuais

Dito e escrito, amigo leitor, cordial leitora: segue o relato de Vânia Leal sobre sua imersão nos ares do Acre, a viagem de mapeamento para o Rumos Artes Visuais que terminou transcendendo em experiência sensorial, espiritual, filosófica, e é só seguir:

Quinta-feira, 28 de março de 2011

Rumo ao espírito vivo da florestania!

Decolo de Belém para Rio Branco, e não imaginava um percurso tão longo. Fiz escala em Brasília, Manaus e Rondônia. Confesso que já estava preocupada, mas, enfim, o Acre! Logo que vi a exuberância da floresta o cansaço ficou de lado.

Deixei parte da bagagem no hotel e, como já havia planejado, chamei um táxi para me levar a Xapuri. O encontro com os artistas seria no dia seguinte e eu estava determinada a passar a noite por lá.

O Acre é o centro da Panamazônica, está integrado aos demais estados do Brasil, à Bolívia e ao Peru. E nessa região, em um raio de 750 km, vivem 30 milhões de pessoas de diferentes culturas.

Estava consciente de que pisava num solo de 16 milhões de hectares de floresta tropical, com a maior biodiversidade do planeta. Um fato curioso é que metade de seus habitantes vive na floresta. Dentre eles, 15 mil são indígenas, de 14 etnias diferentes, distribuídos em 32 reservas, onde preservam suas tradições.

As comunidades se organizam a partir de uma produção familiar que utiliza o rio como principal meio de transporte e a própria floresta como meio de alimentação.  Este fato gera conflitos por posse de terras, e uma defesa coletiva do meio ambiente. A Amazônia é um lugar de conflito constante. Os acreanos não deixaram a soja entrar na região, diferentemente de Santarém, que enfrentou problemas sérios, sociais e ambientais, até hoje refletidos na paisagem.

Os acreanos cultivam a florestania, seu princípio de respeito ao meio ambiente e à multiplicidade sócio-cultural.

Sabemos que desde sua ocupação, o Acre chamou a atenção do mundo graças ao látex e à figura de Chico Mendes, que se transformou num símbolo mundial de preservação ambiental. Estando ali, percorrendo a cidade, ouvindo as pessoas, entendemos a razão do legado e da projeção de Chico nos programas de desenvolvimento sustentável da região.

Ao visitar o roteiro “Caminhos de Chico Mendes”, o Seringal Cachoeira, entrei em contato com a natureza amazônica e a história de Chico. Deparei-me com grandes áreas de floresta nativa e uma população que vive dos recursos extraídos dessa floresta. No caminho, uma cutia atravessava lentamente. O motorista parou e esperou ela fazer a travessia. Ele me disse: “todo ser vivo deseja viver, nós é que estamos no ambiente dela”. Entendi aquela atitude, e, realmente, nós é que somos invasores na Amazônia, os animais estão lá, em seus lugares de direito.

Para mim foi um divisor de águas conhecer o Seringal Cachoeira. Vivi intensa emoção, e entendi parte da constituição de nosso universo étnico e florestânico. Sentir o cheiro e mistério da noite que chega ao andar sob os caminhos do lugar é um estado de espírito, uma experiência filosófica que deve ser sentida.

Ao amanhecer fiz o caminho de volta, e fui ao centro conhecer as tradições indígenas amazônicas e andinas do uso da Ayahuasca, conhecido como “Santo Daime” no Acre e “Ayahuasca” no Peru. O chá sagrado revela uma herança cultural comum. No Acre, nos anos do século XX, essa bebida sagrada foi apreendida por seringueiros brasileiros que recriaram as tradições indígenas amazônicas e andinas do uso da Ayahusasca, agregando a elas outros elementos afro-brasileiros e cristãos, e firmaram uma nova religião que passou a ser chamada de “Santo Daime”.

Em conversa com o senhor Antônio, verifiquei que surgiram assim, a partir dos ensinamentos do Mestre Irineu Serra, outras doutrinas com elementos rituais variados, como a Barquinha e a União do Vegetal, que se integram às atuais sociedades e culturas da Amazônia ocidental e são praticadas por milhares de pessoas nesta região. Não poderia vir ao Acre e deixar de conhecer a origem do chá sagrado que nasceu no interior da imensa floresta amazônica.

Cine Recreio, onde aconteceu o encontro do Rumos Artes Visuais

Às 10h sigo para o Cine Recreio, no Calçadão da Gameleira, que fica ao lado da Fundação de Cultura Elias Mansur. Fui bem recebida pelas pessoas da Fundação (o Herbert Levy me acompanhou em todos os momentos). Conheci pessoas, usei a internet, e rapidamente me senti em casa. Logo entendi que o povo da floresta tem um propósito: a simplicidade e simpatia são para eles características muito bem demarcadas, como um bem patrimonial a ser cultivado.

Logo os artistas começaram a chegar, e o Cine Recreio é incrível, um lugar estruturado, tudo novinho. A integração foi imediata, Lucie Maria, Luiz Felipe, Tibério, Iracema, Jocilene, Edila, Jean, Uelliton, Marco Moura, Wenned, Moisés, Paulo Sérgio, Luiz Carlos, Raul, Glicério, Darci, Danilo, Clementino, alunos do curso de Artes Visuais e a equipe da Fundação estavam presentes.

Grupo de artistas acreanos

As falas dos artistas foram consistentes, e logo percebi uma política cultural comprometida com o lugar. Vi trabalhos e conversamos sobre o edital, e de lá já fui com o Ueliton Santana em seu ateliê.

Um fato interessante é que os artistas, em sua maioria, foram estudar na Faculdade de Belas Artes em Cuzco, no Peru. Ueliton é um deles. Atualmente faz Artes Visuais no Acre. Este processo provoca interferências culturais na produção contemporânea dos artistas, e isso é visível nos trabalhos de Ueliton, que me falou estar contaminado pela mistura de culturas.

Espaço Usina

À tarde fui ao ateliê de Jean Carlos, que faz pintura e objetos voltados para o escorrismo. Conhecer o lugar foi muito importante para perceber o diálogo dos artistas. Depois me dirigi para a Usina, uma antiga fábrica de castanhas. O lugar foi todo adaptado para cursos de Artes Visuais, Teatro, Cinema e Música. A estrutura é incrível, e os projetos desenvolvidos são dinâmicos, acompanham a cena contemporânea da arte. Lá também verifiquei o trabalho de gravura da Lucie Schreiner, bem expressiva.

Casa de madeira dentro do Espaço Usina

Grupo que trabalha na Usina

Depois paramos na casa do Glicério, responsável pela Associação dos Artistas Plásticos do Acre – AAPA. Lá conheci o trabalho do jovem artista Wennedy, estudante do primeiro ano de Arquitetura. Ao olhar seu trabalho, comentei: “gostei muito do teu olhar fotográfico!”. Ele me respondeu: “mais isso não é fotografia, é pintura quase fotografia”. O diálogo foi rico, e vi que o Wennedy sabia o que estava fazendo.

Casa de Glicério

Fim de tarde fui num bar chamado Batatão, de frente para o rio Acre. O garçom se aproximou e perguntou se eu queria um sujinho. Pedi explicação, e entendi que o sujinho é um chope super gelado, que ainda vem com duas pedras de gelo, e na borda do copo um sal cristalizado com gosto de limão que se mistura quando tomamos. Depois de dois dias de trabalho intenso, me permiti experimentar o sujinho e observar o entardecer sobre as casas coloridas. No Acre, é uma hora a menos de Belém, e assim tive a chance de perceber o dia mais devagar e a luz natural pouco a pouco sendo substituída pelas luzes da cidade. Outra cidade se revelou para mim.

Entardecer de frente para o rio Acre e suas casas coloridinhas

Luzes na cidade: Passarela Joaquim Macedo

Sobre o rio Acre, a Passarela Joaquim Macedo toda iluminada dá um charme complementar ao Calçadão da Gameleira, o sítio histórico mais antigo da cidade, bem em frente ao Mercado Municipal e repleto de mesas com pessoas contemplando a noite calma.

No Mercado, tradicionais lojinhas de ervas, artesanatos e lanchonetes especializadas na culinária regional.

De manhã andei pela cidade, vi ciclovias, a Biblioteca da Floresta, restaurantes e lojas sempre emolduradas por árvores e gramados. O Parque da Maternidade é enorme, e lá está instalada a Casa dos Povos da Floresta. Dei uma paradinha. Seu acervo sobre a cultura dos seringueiros, índios e ribeirinhos, além das lendas e segredos, é significativo.

Casa dos Povos da Floresta

Ter estado no Acre, conhecido e convivido com a simplicidade das pessoas, com a produção artística, com sua história e memória, mexeu comigo. Fui afetada por campos de força que me fizeram reencontrar com a identidade amazônica, aprendi lições importantes, como a delicadeza do detalhe, de ouvir em silêncio, aliás, de escutar o movimento natural do dia, e preservar e promover a vida dos seres que fazem a diferença no planeta. A experiência do Rumos é ímpar, porque nos faz ver as singularidades dos locais, exercitar a acuidade do olhar em integração com o outro.

Obrigada, Povos da Floreta do Acre, sou uma pessoa melhor!

[Vânia Leal]

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About reuben da cunha rocha

São Luís (MA), 1984. Jornalista, escritor e tradutor, com trabalhos publicados em revistas como Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Revista de Autofagia, Cult, Modo de Usar & Co. e Continuum, do Itaú Cultural. Em 2004, foi selecionado da primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, também é editor da revista Semeiosis, do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação.

7 thoughts on “O Acre e as Artes Visuais

  1. Belíssima experiência, é como se navegássemos junto com Vânia Leal nessa viagem. Ótimo texto, lindas fotos. Abraço

  2. Vânia nos deixa com vontade de percorrer todos esses lugares e principalmente conhecer esses artistas e suas obras. Fico imensamente feliz quando percebo um trabalho sendo feito com tanta delicadeza e sem perder o foco. Parabéns a vocês todos. Tomara que esse Rumos nos traga obras nunca antes vista por aqui.

  3. Vânia,somente hoje vie essa matéria,muito boa…
    Sou o Luiz Carlos,o moço da blusa “Gentileza gera gentileza”
    Obrigado pelas belas palavras do meu amado Acre.
    Abraços.

  4. Oi, Vânia, muito legal a passagem pelo Acre. Somente uma retificação: onde se lê Casa dos Povos da Floresta, na verdade é Memorial dos Autonomistas e Theatro Hélio Melo. No mais tá tudo beleza… Grande abraço.
    Danilo de S’Acre ( o de óculos lá em cima, na foto.)
    PS.:Outra dúvida, no Bar, não Patetão em vez de Batatão?

  5. Vânia, Parabéns pela matéria! Mas vou lhe ajudar a enriquecer o assunto, relativo à parte artística de nossa capital Rio Branco e no Acre como um todo. Cabe enaltecer artistas do passado não tão distante, como o grande Garibaldi Brasil, Adalberto Conde, grande artista plástico, detentor de várias obras que hoje se encontram espalhadas pelos quartéis de exército da cidade, que inclusive foi também o pioneiro na arte de serigrafia de Rio Branco. Também, temos o saudoso Primo Líbio, Mazinho, e outros.

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