Dias e noites do Norte (4)

Contagie-se do pique, inestimável leitor, retumbante leitora, eleve-se alto ao Norte, de onde chegam mais notas de viagem, fotos e legendas de Vânia Leal, curadora de Mapeamento do Rumos Artes Visuais na região. Depois de Marabá, você fica sabendo de Santarém, também no Pará. Ó lá:

Santarém pede passagem

Quinta-feira, 24 de março

Decolo de Belém para Santarém. Voo entre o Pará e o Amazonas, e que vislumbre: o Amazonas se revela ali, diante de mim. Aterrisso em Santarém.

O primeiro dia é sempre dedicado a uma visita à cidade, para de alguma forma associá-la à produção dos artistas.

Museu de Arte Sacra

Ponto de encontro na Praça da Matriz. O melhor caldo de cana

Dirigi-me à Praça da Matriz, entrei na Igreja N. Sra. da Conceição, no coreto da praça e no Museu de Arte Sacra. Mas foi no Espaço Cultural João Fona que fiquei horas conversando com o diretor, o senhor Laurimar Leal, que é uma memória vida da cidade. Ouvi a história do lugar, as dificuldades que o museu apresenta – como, por exemplo, suas 63 lâmpadas queimadas –, ouvi sobre o descaso com o patrimônio. O sonho do diretor: ter um computador no museu. Fica aqui o registro.

Eu e o sr. Laurimar, no Espaço Cultural João Fona

Segui para o parque Silva Jardim, visitei uma feira de artesanato que acontece no terminal, e de lá fui ao mirante, observar o encontro das águas entre o rio Amazonas e o rio Tapajós. É de uma beleza excepcional!

Encontro do rio Tapajós com o rio Amazonas. Ver para crer!

Nessa pausa, o calor se mistura ao frescor, e o ar agora tem cheirinho de férias. Na Amazônia, costuma-se dizer que o rio é a rua. Tem até uma música do Rui Barata que diz assim, “esse rio é minha rua/ minha e tua mururé/ piso no canto da lua/ piso no chão da maré”. Olhando o rio Tapajós, confirmo o que disse o poeta, pois ali se transportam vidas, mercadorias e sonhos. Barcos pequenos se misturam com outros maiores e fazem a ligação entre as cidades vizinhas.

Entrada do Museu Dica Frazão

À tarde fui ao museu da senhora Dica Frazão, que é o único museu do mundo que produz roupas com fibras naturais da Amazônia. Tudo é recolhido da natureza, das cascas das árvores, das centenas de palhas de todas as espécies. Desde a linha de costura. Ela me conta, orgulhosa: “fiz um vestido para a rainha Fabíola da Bélgica”, e na vitrine expõe uma réplica. Aliás, na vitrine há vestidos de noiva e modelos com um corte refinado.

Ateliê de Dona Dica Frazão

Réplica da roupa feita para a rainha da Bélgica

Guardei na memória a seguinte frase que Dona Dica me disse: “troquei os tecidos pela natureza”.

Dica Frazão: patrimônio imaterial de Santarém

E foi com a natureza que me integrei nos dias em Santarém. Uma cidade encantadora que tem uma orla elegante com barcos todos novinhos. Segundo o último censo, a cidade tem mais de 300 mil habitantes, e está em pleno crescimento. Tem várias faculdades, variados hotéis e pousadas.

Os barcos na orla são novinhos, todos pintados

No fim da tarde, fui experimentar o melhor tacacá da cidade, e lá conheci a Dona Didica, que tem muitas histórias para contar. O tacacá realmente merece o título que carrega, e sou uma tomadora de tacacá em potencial. Em Belém, quase sempre sou atraída pelo cheiro do tucupi que exala em alguns pontos da cidade nos finais de tarde.

O melhor tacacá de Santarém, feito por Dona Didica

À noite fui à casa do Egon Pacheco, um artista comprometido com a produção contemporânea e com a cidade. A articulação do Egon foi importante, pois conseguiu reunir um grupo significativo de artistas. Dentre eles, Cicley Araújo, Marcio Desencourt, Adrion Denner, Elvis, Edú Costa e um senhor chamado Moisés de Vasconcelos, que apresentou uma pintura de paisagem expressiva.

Com os artistas, na casa do Egon Pacheco

Fiquei super animada com a produção do grupo, ficamos muitas horas vendo trabalhos no computador, e também alguns que foram trazidos pelos artistas.

Quando digo que é um grupo significativo, não estou me referindo à quantidade, mais à qualidade dos trabalhos, que dialogam com o lugar, mas que vão muito além, vão para outros lugares.

Exposição do artista Egon Pacheco no SESC

Dia 25, pela manhã, me dirijo ao SESC, e logo na entrada deparo com a galeria onde há uma exposição individual do Egon Pacheco. Uma série de xilogravuras em que as matrizes foram produzidas em madeiras deixadas pelo meio do caminho na cidade. Depois nos reunimos no cinema, para ver o vídeo do Rumos e comentar o edital e outras questões.

Encontro no SESC

Posteriormente fui à casa do artista Elcicley Araújo, onde fui recebida com um café gostoso feito pela sua mãe. Vi seus trabalhos e o constante pensar inquietante do artista. De lá, seguimos para Alter do Chão, uma praia que fica a 32 km de Santarém, situada entre Belém e Manaus. Eu estava decidida a cumprir um ritual: entardecer nas águas do rio Tapajós, comungar com o lugar.

Na casa do artista Elcicley Araújo

Eu e Elcicley Araújo em Alter do Chão. Momento ímpar!

A natureza é vívida, a praia é cercada por um verde, uma diversidade natural que mais parece um santuário.

Alter do Chão é conhecida pela Festa do Sairé, que acontece no mês de setembro, e durante cinco dias subverte o cotidiano da antiga vila de pescadores, pela exibição do boto Tucuxi e Cor de Rosa. Alter do Chão tem 300 habitantes, mas na época do Sairé recebe mais de 80 mil pessoas.

O boto é uma figura emblemática, e evidencia uma lenda que tem tudo a ver com as comunidades ribeirinhas. Quando eu era criança, por conta do boto, tinha medo de ficar sozinha no rio.

Observei, em Alter do Chão, rostos amazônicos, sangue indígena e caboclo, uma diversidade que o país oferece. Senti-me em casa, encontrei-me por algum momento com minhas raízes.

Às 18h, experimentei as águas do rio, com a noite anunciando um momento mágico ao ar livre. Lembrei-me do boto, mas logo me dei conta de que não posso mais engravidar, sorri e agradeci a Deus por aquele momento.

Ave Alter do Chão!

[Vânia Leal]

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About reuben da cunha rocha

São Luís (MA), 1984. Jornalista, escritor e tradutor, com trabalhos publicados em revistas como Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Revista de Autofagia, Cult, Modo de Usar & Co. e Continuum, do Itaú Cultural. Em 2004, foi selecionado da primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, também é editor da revista Semeiosis, do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação.

2 thoughts on “Dias e noites do Norte (4)

  1. Olá Amigos do Rumos
    Aqui em Santarém estamos acompanhando o blog do mapeamento e estamos gostando muito.
    Muita gente está acessando e parabenizando toda a equipe do Rumos pelo ótimo trabalho.
    Um abração

    Egon

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