Dias e noites do Norte (2)

Segunda parte do relato de Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região Norte do Rumos Artes Visuais. Aperte o cinto, aventureiro leitor, que vem lá o início, propriamente dito, da viagem:

De Belém a Marabá

A região de Marabá tem algo de excepcional – será que é pela vista de cima, que mostra o ponto de encontro entre os rios Tocantins e Itacaiunas, formando uma espécie de “y” no seio da cidade? Será que é pela oportunidade de entrar em contato com culturas diversas, sendo uma cidade de grande miscigenação, que faz jus ao significado popular do seu nome, “filho da mistura”? Ou então, porque a cidade também é conhecida como Cidade Poema, pois seu nome foi inspirado no poema Marabá de Gonçalves Dias?

Talvez seja por uma combinação desses fatores, mas o fato é que desperta curiosidade por uma visita à região, e experimentá-la é como algo único.

É um município brasileiro situado no interior do estado do Pará. Pertencente à mesorregião do Sudeste Paraense e à microrregião homônima, está ao sul da capital do estado, distando desta cerca de 485 quilômetros. É formada basicamente por seis distritos urbanos, interligados por rodovias.

O povoamento da região de Marabá se deu nos fins do século XIX, com a chegada de imigrantes goianos e maranhenses. A emancipação municipal ocorreu em 1913, com seu desmembramento do município de Baião.

Durante um grande período, o desenvolvimento do município foi dado pelo extrativismo vegetal, mas com a descoberta da Província Mineral de Carajás, Marabá se desenvolveu muito rapidamente, tornando-se um município com forte vocação industrial, agrícola e comercial. Hoje Marabá é interligada por três rodovias ao território nacional (BR-222, BR-230 e a PA-150), por via aérea, ferroviária e fluvial.

Atualmente, o município é o quarto mais populoso do Pará, contando com aproximadamente 233.462 mil habitantes, segundo o IBGE/2010.  É o principal centro socioeconômico do sudeste paraense, e uma das cidades mais dinâmicas do Brasil.

De Belém a Marabá é uma hora de voo, e ao andar pela cidade o calor toma conta, a luminosidade forte faz tudo ficar mais acelerado. As ruas do comércio são povoadas por motos, bicicletas, carros e pessoas que andam num rítmo diferente, o tempo se revela dinâmico pela aglomeração e lento pelo andar das pessoas, como se não tivessem pressa de chegar nos lugares.

Praça Central de Marabá

Encontramos ciganos acampados, uma grande comunidade que mora nas ruas. Na praça central, me deparo com abrigos feitos para pessoas que tiveram suas casas alagadas. Todo ano o rio Itacaiunas sobe, e a cheia já faz parte do cotidiano de Marabá. Entrei num desses acampamentos e era como se a casa tivesse sido transportada para lá. Ambiente da sala com televisão, estante, cadeiras de balanços, decoração de santinhos na parede, menino lá fora em sua bicicleta, enfim, o povo enfrenta as dificuldades com poesia.

Acampamento provisório, para os que tiveram suas casas alagadas

Visitei também o primeiro bairro da cidade, Cabelo Seco, atualmente uma área que necessita de cuidados, por conta de vários problemas sociais, como drogas e perigos constantes. Ao entrar no bairro, é como se a conexão com outro tempo acontecesse. Roupas no varal alto em plena rua, e música alta para todos os moradores, comandada por uma aparelhagem em pleno sol quente. Tecnobrega é o que há!

Cabelo Seco, primeiro bairro de Marabá

O tecnobrega teve momentos de interessante aspecto antropológico e social, com sua tecnologia de fundo de quintal produzindo músicas de salão rapidamente e da forma mais descartável possível, fugindo do falido esquema de gravadoras e utilizando aparelhagens e camelôs como armas, não como inimigos. Mas esse momento inicial passou.

Agora… tá valendo tudo. Me acordem quando o hype passar.  Foi uma onda de tecnobrega num dia quente no bairro Cabelo Seco, em Marabá.

[Vânia Leal]

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About reuben da cunha rocha

São Luís (MA), 1984. Jornalista, escritor e tradutor, com trabalhos publicados em revistas como Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Revista de Autofagia, Cult, Modo de Usar & Co. e Continuum, do Itaú Cultural. Em 2004, foi selecionado da primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, também é editor da revista Semeiosis, do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação.

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