Dias e noites do Norte (1)

Lubrifique os sentidos, caro leitor, amiga leitora, para a viagem que está pra acontecer. Você nem vai se levantar de onde estiver, mas dará um giro pelo Norte do país, ao preço apenas da leitura — cortesia do Rumos Artes Visuais, através de Vânia Leal, curadora de Mapeamento da região, que nos envia uma expressiva série de impressões de sua viagem ao Pará. Siga a sinalização e vá em frente:

A ARTE NA AMAZÔNIA: uma região, o sentido deste lugar

Um fato de grande relevância, e que permeia e norteia muitas hibridações e mestiçagens no mundo contemporâneo, é aquele que indaga sobre o papel da diferença das culturas, identidades e subjetividades. Um suporte com muitas possibilidades para o artista.

É assim que a arte contemporânea parte para a experimentação de objetos, espaços, materiais e diálogos que antes não se imaginava, colocando num campo de possibilidades, aparentemente desprovido de metodologias ou injunções, o ambiente (lugar) enquanto poética de um fazer indutivo.

Acredito que este ambiente não implica comodidade ou prazer, mas demanda uma interpretação, um esforço aplicativo, uma vontade de estabelecer relação. Assim o artista passa a operar sobre o ambiente através das coisas e pessoas nele dispostas, propondo tanto uma reflexão do indivíduo sobre seu lugar/habitat quanto provocando uma reflexão do sujeito, onde ele mesmo, enquanto ser humano, é parte envolvida neste espaço da arte.

Ao pensar a arte em conexão direta com o lugar, os artistas contemporâneos estabelecem, a partir de novos campos de pesquisa, uma relação de percepção dos sentidos com lugares comuns, que passam a ser o lugar do novo, do diferente e do instigante a partir do olhar, da sensibilidade e da concepção artística, entre linguagem e mundo. A linguagem se apresenta como condição do humano, entre o interior e o exterior, entre o singular e o comum.

O lugar, a articulação dos exercícios da vida cotidiana, se dá no acontecer, não se parece com quaisquer comunidades reais, atuais, identificáveis, pois justamente quando se desfazem é que se afirmam, se legitimam. Dentro deste contexto, no campo artístico da atualidade eu entendo que o contato do artista com diferentes grupos, com a condição do humano nas práticas e experiências cotidianas, promove novas narrativas identitárias.

Neste sentido reporto-me à paisagem amazônica com seus elementos poéticos, políticos e sociais. Este ambiente tão longínquo no imaginário de muitos, até mesmo de seus habitantes, é a proponente de muitos diálogos.

A Amazônia é um todo heterogêneo, que abriga complexidades a serem consideradas. Sua biodiversidade, seus fazeres cotidianos tão cheios de saber, originam um ambiente subjetivo de ficção e, portanto, de filosofias, e outra parte que, desde a modernidade, se desenvolve em função da insatisfação com a desordem, e às vezes com a ordem, do mundo: além de conhecer e planejar, interessa transformar e inovar.

Os muitos lugares deste lugar exigem leituras pautadas no cotidiano, são leituras espontâneas que apenas a dinâmica da vivência diária proporciona, através do contato com o ambiente, do pisar no solo, do reconhecer dos cheiros, do paladar e do ouvir aquilo que lhe é familiar.

Acredito na importância de conhecer, e apreender o “interior” do lugar cotidiano, esse lugar que comum aos seus habitantes, que compreende uma relação tão mútua e íntima que se estabelece um vínculo afetivo, porém, longe de ser um Éden exótico. Para entender essa complexidade, nós – pesquisadores, artistas, curadores, educadores, enfim, estudiosos da criatividade, da circulação e do consumo culturais – temos que nos preocupar cada vez mais em entender os dados brutos, os movimentos socioeconômicos que regem com novas regras os mercados científicos e artísticos, assim como nossa instável vida cotidiana.

A Amazônia, longe de estar num patamar de unidade, constitui-se na diferença, e pensar a arte e a cultura compele à discussão dos fatores geopolíticos, seus atores e consequências culturais, que estão na base dos conflitos. A meu ver, a cultura não pode ser vista como um recurso de emergência, nem através da mágica de “criar uma nova cultura”, mas sim pela necessidade de ordenar os conflitos entre imaginários, daquilo que cada um imagina como globalização.

O artista da Amazônia é depositário de uma herança cultural e de valores. Também testemunha cotidianamente uma experiência dramática e perversa. Lanço então o seguinte questionamento sobre a proposição de mapeamento do Rumos: como conciliar desenvolvimento, respeito às populações tradicionais (índios, ribeirinhos, quilombolas e outros grupos), ecologia, sustentabilidade, progresso, conhecimento, justiça social e geopolítica?

Com isto em mente, me lancei à região Norte. Ao observar do alto do avião a dimensão da floresta, ao adentrá-la, entendi perfeitamente o conceito de “inferno verde”, empregado a partir do encontro de Francisco Orellana com as índias Icamiabas (e aprofundado por Euclides da Cunha com sua obra Um paraíso perdido. Ensaios amazônicos) para designar a região, como alusão às difíceis condições de vida na floresta durante a colonização.

Esses difíceis caminhos inscrevem a produção artística na Amazônia. Os artistas têm uma intimidade com o valor simbólico do lugar. Verifiquei a diversidade cultural de tempos para lá de assincrônicos, e a floresta ditando suas regras.

No entanto, o Acre não é Belém, e fora de Belém, no sudeste do Pará, Marabá e Santarém fortificam suas identidades independentes, uma outra região dentro da região. Rondônia não é Roraima, nem um Waiãpi é um quilombola. Amapá é fronteira com as Guianas Francesas, e a migração de ritmos é incrível. Cada vez mais o borramento acontece. Misturam línguas, costumes, a produção de cada lugar apresenta visões fenomenológicas de espaço e tempo, e as possibilidades de trocas culturais são muito especiais, muito peculiares.

Estes ambientes de contradições cotidianas confirmaram nas minhas andanças uma ampla rede de pesquisa para os artistas contemporâneos locais, que alguns atravessam no olhar, na superação das fronteiras legais, produzindo uma arte que confluí para a universalidade.

A influência do cotidiano amazônico faz-se inevitável. Formam-se intercâmbios de sentidos, que se entrelaçam à cultura e se tornam cenário de expressão, incorporados organicamente à dinâmica da vida e à produção simbólica cotidiana, vista como hibridismo vivo em constante movimento.

Na urbana Belém amazônica, atualmente convivem sedimentações identitárias, que se formam na dinâmica cotidiana das populações ribeirinhas. Elas convivem com o rio e, ao mesmo tempo, em um espaço tão curto, são uma população cuja urbe torna cega de sentidos, de calma e até mesmo de beleza, convergindo para um ambiente extremamente complexo. Cotidiano simples, ao mesmo tempo contraposto, drasticamente, ao cotidiano acelerado construído no centro da cidade.

Belém é a cidade que alimenta contornos gigantescos quando falamos em Amazônia, um fragmento urbano na floresta. Belém é a capital mais antiga da Amazônia, e ocupa o posto de mãe por ter sido a primeira porção de terra em meio à floresta em que os colonizadores aportaram e se fixaram. O lugar sempre despertou interesse de pesquisadores, naturalistas e botânicos, sendo o centro da Amazônia.

A Amazônia não é mais uma simples fronteira de expansão de forças exógenas, nacionais ou internacionais, mas sim uma região no sistema espacial nacional, com estrutura produtiva própria e variados projetos de diferentes atores. A sociedade civil passou a ser um ator importante, tanto na zona rural como na zona urbana, especialmente pelas suas reivindicações de cidadania, que inclusive influem no desenvolvimento urbano.

O artista neste contexto é apontado como aquele ator que atravessa fronteiras de classe, pensa conflitos sociais, afasta-se dos parâmetros de legitimação do gosto burguês ou desobedece todo o cânon exterior – daí sim, um caminho produtivo na arte da Amazônia.

No Pará, como em toda a Amazônia, história e imaginário se entrelaçam, aliadas, se integram como as margens de um mesmo rio cotidiano.

Acredito que a arte do Pará inventa estratégias que atravessam o fazer artístico, e muito do que se vê daqui tem um forte acento conceitual. A alma amazônica visível está no convívio nacional e internacional da produção artística de alguns profissionais que foram influenciados pelo convívio com os artistas João de Jesus Paes Loureiro, Emannuel Nassar, Luiz Braga e Osmar Pinheiro, que na década de 1980 pensaram e utilizaram em seus trabalhos elementos classificados por alguns de “visualidade amazônica”.

Porém, no catálogo do Arte Pará 2005, Herkenhoff faz um alerta aos artistas emergentes, contra a burocratização do olhar e a possibilidade de transformação da visualidade amazônica em parâmetro acadêmico fácil, o que ele classifica de suicídio.

Um fator relevante do desprendimento dessa atitude cultural foi a criação da Fotoativa nos anos 80, que lançou o desafio da busca por olhares próprios, impulsionando o surgimento de artistas importantes, o que revelou a produção audiovisual local de maneira significativa. Os artistas passaram a ampliar seus repertórios, experimentando as pesquisas com linguagens, não ficando restritos, em sua atuação, à região.

Ressalto aqui, dentre muitos outros artistas, Flavya Mutran, Armando Queiroz, Alexandre Sequeira, Paula Sampaio, Walda Marques, Orlando Maneschy, Alberto Bitar, Miguel chikaoka, Mariano Klautau, Luiz Braga, Emanuel Nassar, Guy Veloso, que têm obras em acervos importantes e participam de mostras nacionais e internacionais, além de bienais.

Na geração emergente, devidamente convocados para o Rumos Itaú, Melissa Barbery, Roberta Carvalho, Luciana Magno, Victor de La Roque, Berna Reale, Daniele Fonseca, Keila Sobral, Murilo Rodrigues, Carla Evanovitchi, Lucia Gomes, João Cirilo, Ruma, dentre outros que vêm desenvolvendo seus trabalhos através da bolsa pesquisa Instituto de Artes do Pará, com inserção nos salões locais e nacionais.

As estratégias de inserção e circulação de muitos desses artistas vêm sendo concebidas por curadores e críticos, que legitimam a consistência de seus trabalhos, que a meu ver, retêm um caráter universal.

Acredito que estes profissionais, ao abrirem possibilidades e condições para a paisagem pós-moderna, dão abertura e condição para o olhar amazônico.

Ressalto que o papel dos artistas contemporâneos (especialistas simbólicos), de propor e tornar mais receptivas as sensibilidades dos indivíduos ao mundo audiovisual, requer uma revisão constante da própria produção do saber.

Desta forma, pensar a arte contemporânea enquanto fator social do fenômeno humano é considerar a existência de práticas humanas como um fazer artístico, atravessando campos reflexivos da filosofia, das artes e das ciências.

Reafirmo que aplicar essa reflexão à realidade paraense-amazônica vai muito além das teorias, pois é o pensar de quem habita, de quem mora, de quem é “permanente e contínuo”, que vai ensinar e mostrar o produto imaginário a quem visita, a quem é “circunstancial”. Acredito que o visitante, ao se deparar com as experiências e informações do lugar que tanto povoa a curiosidade de muitos, faz uma nova leitura dessa paisagem, que influencia e age como sinal ativo de trocas simbólicas e aprendizagens entre grupos e culturas diferentes.

A meu ver, a importância da compreensão da arte no processo social da qual faz parte me leva a considerar que, se a arte é uma produção social, ela é uma prática social, e o envolvimento do artista, no desenvolvimento de sua produção, com um conjunto de relações sociais, transforma a maneira de sua produção artística.

Nesse campo de relações, a arte na Amazônia valoriza e transforma, cria um duplo movimento pelo qual o novo surge sem destruir o antigo. Está inserida na paisagem pós-moderna e provoca a dialética entre regionalidade e universalidade, passado e futuro, identidade e multiculturalismo, enfim, uma região em si.

Assim seja!

[Vânia Leal Machado]

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About reuben da cunha rocha

São Luís (MA), 1984. Jornalista, escritor e tradutor, com trabalhos publicados em revistas como Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Revista de Autofagia, Cult, Modo de Usar & Co. e Continuum, do Itaú Cultural. Em 2004, foi selecionado da primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, também é editor da revista Semeiosis, do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação.

One thought on “Dias e noites do Norte (1)

  1. Vânia, noooossaaaa Parabéns !!!! Que trabalho maravilhoso esse mapeamento das artes visuais da região norte !!!!!! O Acre , que lugar incrível….a minha psicanalista é de lá , e todo ano ela me conta 1 pouco da experiência de retornar…
    Que alívio saber q existem tantos artistas pensando e produzindo além da rota tradicional Rj/SP !!!!
    Obrigada pelas suas experiências!!!
    Até breve
    Maria

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