No que pensa uma pista de dança?

Não gosta de ser fotografado. O analista de sistemas de vinte e quatro anos, dois metros de altura, cabelos tão compridos quanto, piercing e roupas pretas sentado no banco do motorista do carro que ocupamos desconversa quando toco no assunto.

Eu desembarcara no início da tarde em Brasília e agora, no início da noite, estava de saída da cidade sem esquinas – numa rodovia lotada graças à greve de ônibus –, em direção a Novo Gama, no leste goiano. Com o volume levemente acima do Interpol que toca no som do carro, eu e Leandro Trindade conversamos sobre a cena de música eletrônica no DF (“mais forte nas cidades satélites que em Brasília”), a impossibilidade de se andar a pé na capital do Brasil, a coincidência de nossas datas de aniversário e sobre o motivo de minha viagem — seu projeto selecionado pelo Rumos Arte Cibernética em 2009 –, mas quando proponho que “a gente podia fazer um vídeo com você explicando o projeto, coisa rápida, cinco minutos”, obtenho como resposta um lacônico “aí é mais difícil…”.

Não que não queira dar mais explicações: Leandro não poupa esforços para deixar tudo claro — tão claro quanto possível a este nada aritmético repórter, é claro –, mas não gosta de chamar atenção para si. O jeito é mirar a câmera no computador — eu bolaria o plano na quase-hora que levamos pra chegar ao laboratório onde trabalha no projeto IdAnce: Pista de Dança Interativa, selecionado no ano passado na carteira de apoio à produção de obras em arte e tecnologia. O resultado final, calcula, vai dar pra conferir até setembro. “Mas faltam apenas ajustes, a tecnologia já está resolvida”, e começa a elencar as possibilidades infinitas de desenvolvimento da pista. “Sou megalomaníaco com esse projeto”.

Curitibano criado em Belém — fato que o sotaque não nega –, Leandro rumou pro Centro-Oeste há sete anos para prestar vestibular. Ciências da Computação na UnB, que concluiu tem um ano. “A história clássica do nerd, primeiro computador aos oito anos…”. Outras fissuras são a música e os games. Outras, mas não separadas. “Sempre que dava eu encaminhava os trabalhos da faculdade pra uma das duas coisas, desenvolvimento de games ou análise de música”. As incursões renderam até um jogo de luta cujos personagens eram professores do departamento. “Fiquei sabendo que eles jogaram uma partida na sala dos professores”. Fã de música gótica, Leandro também ataca de dj. Recentemente largou a última banda. “Pra poder trabalhar, né velho?”.

Ele se divide entre o emprego — trabalha com desenvolvimento de aparelhos celulares — e os dois projetos de que participa, o IdAnce e o WIKINARUA, este último contemplado pelo programa Laboratórios de Experimentação e Pesquisa em Tecnologias Audiovisuais, do Ministério da Cultura. Tanto o IdAnce quanto o WIKINARUA são tocados no MídiaLabLaboratório de pesquisa em arte e realidade virtual, vinculado ao Instituto de Artes da UnB –, para onde convergem pesquisadores das Ciências da Computação, das Artes e da Mecatrônica – desta última saiu outro dos selecionados da mesma edição do Arte Cibernética, Breno Rocha, com a obra Tijolo Esperto.

O IdAnce nasceu como projeto de iniciação científica no Laboratório: uma pista de dança inteligente, que criasse padrões de formas e cores a partir da análise da música e dos movimentos das pessoas na pista. Os ingredientes: um software desenvolvido por Leandro, webcams modificadas, datashows de curto disparo e iluminadores infravermelhos. Além, é claro, de um setlist dançante.

Uma primeira versão — a da iniciação científica — foi apresentada em 2009. Com a bolsa do Itaú Cultural deu pra corrigir alguns improvisos, apostar em equipamentos de maior qualidade, expandir a idéia. O laboratório onde estamos e em que Leandro dá vazão à justificada megalomania é uma sala nos fundos da casa de uma amiga sua, a Carla Martins. Ela nos recebe e se junta à conversa, e também sua mãe, dona Maria Amélia. Seguimos a conversa enquanto ele prepara a pista, e em sua fala chama atenção que nunca se apresente como artista. “Há uma diferença semântica no modo de pensar da arte e da computação”, e ele cita mesmo a dificuldade de escrever um projeto “voltado para o pessoal da arte”.

Outra marca é a visão clara que tem da arte cibernética como desenvolvimento de jogos. No caso da pista, claro, um jogo sem objetivo além de dançar. “Eu não queria fazer arte conceitual, queria desenvolver uma pista de dança, algo prático, útil”. Seu contato com “artistas mesmo” se deu (e se dá) no Laboratório da UnB, um convívio que raramente a turma da computação se dispõe a ter, e que de partida se mostrou bastante fértil: foram os colegas de laboratório que lhe deram o toque sobre o edital do Rumos, e forneceram várias referências bibliográficas que o ajudaram a vencer a tal barreira semântica. Não à toa, Leandro o tempo todo chama atenção para a importância do grupo no desenvolvimento do trabalho.

Mas como é mesmo que esse cara da computação foi parar no Instituto de Artes da UnB? “Foi por conta de um projeto de game que não teve espaço na Computação, e acabou acolhido pelos artistas. Na Computação as bolsas vão para projetos mais práticos, e eu queria algo que envolvesse mais… criatividade mesmo” — ele hesita em usar a palavra, alheia a seu habitat semântico, mas que lhe cai muito bem. A princípio sem bolsa no MídiaLab, trabalhando como voluntário, Leandro atravessou a graduação desenvolvendo projetos (com games ou música, ou com ambos), e após a formatura segue vinculado ao Laboratório como pesquisador e bolsista.

Sua pista de dança interativa é controlada por um computador (ou vários, dependendo do tamanho da pista) que recebe a entrada da música e analisa seu espectrograma em tempo real. Câmeras captam os movimentos das pessoas e geram efeitos a partir disso, LEDs infravermelhos permitem que as câmeras enxerguem as pessoas mesmo no escuro total. Um datashow (ou vários, dependendo do tamanho da pista) projeta as imagens, que se superpõem às pessoas e as integram à obra. O ritmo, os graves e agudos, o tipo de música e suas nuances — seus altos e baixos, em suma — cumprem um papel fundamental na criação dos efeitos e, por extensão, na criação do clima da pista.

E tome algoritmos, vetores de movimento, espectrogramas para traduzir música e movimento em imagens, e numa experiência sensorial integral para quem está na pista — tão mais intensa quanto mais intensamente rolar a interação.

Embora Leandro se reconheça como alguém fazendo coisas práticas, é como pura abstração que soam as explicações matemáticas que dá a meus ouvidos sem técnica. Mas quando o grave perfura esses mesmos ouvidos e as cores ganham forma por causa de meus movimentos, tudo faz sentido.

Não sei quanto tempo fiquei andando (andando, ué, não se dança em serviço) sobre a pista, mas Leandro e Carla me contam que é sempre assim. “Todo mundo tem a mesma reação”. Que o diga dona Amélia, que, me contaram, ao contrário de mim caiu mesmo foi na dança (mas também se intimidou diante da perspectiva de ser fotografada). Que o diga a pequena Brenda — filha adotiva de Carla e prestativa modelo das fotos deste texto –, que não fez cerimônia e me faz pensar no arco que nos une – a gentil septuagenária, sua netinha e eu. A tecnologia e a pesquisa, o jogo e a criação postos para funcionar por uma das invenções ancestrais da humanidade — a dança.

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3 thoughts on “No que pensa uma pista de dança?

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