Expedição musical à terra de Makunaima

[Expedição do Rumos Música, intrigado leitor, de seminário e descobertas, de conversas e entusiasmos de Roraima relatados pela batuta verbal de Israel do Vale: o jornalista-dj sambacana e ubíquo que além do texto e das fotos também mandou o recado: “só quero ver se alguém vai ter saco pra encarar essa verborragia toda! quiserem dividir este épico em capítulos…”. O leitor eu sei que concordará comigo que é fácil o fôlego pra atravessar o caldo desse texto, que é que nem roda de samba, pode ir até o amanhecer que não cansa, e lá vai:]
 

Expedição musical à terra de Makunaima

Por Israel do Vale

Talles Lopes, Makely Ka, Roraima e o Rumos na mira de Israel do Vale

Passei a maior parte da minha vida chamando Roraima de “Rorãima”. Fruto direto das aulas de geografia no ginásio e no colégio, de quando o hoje estado ainda era território nacional.

Só há poucos anos é que fui descobrir que a pronúncia certa era “Roráima” –o que a previsão do tempo no “Jornal Nacional” ajuda a reforçar um pouco por dia. [“O Jornal Nacional já aprendeu; só falta o resto da mídia…”, me diria um dos prestativos roraimenses que nos acompanharam no jantar que se seguiu às mesas do Rumos Música, acolhidas pelo Sesi local].

Estava com medo de falar errado lá. Já pensou que deselegância? Cometer uma gafe dessas com os pés na capital do estado –e na frente dos roraimenses? Me policiei durante semanas! E sempre que comentava com alguém, ressaltava a falta de “til”.

É sempre difícil, leviano até, tentar decifrar um lugar por uma passagem relampejante, de dois/ três dias, como foi a nossa. Mas não é a toda hora que se pode estar na “única capital brasileira inteiramente localizada no hemisfério norte”, como gostava de dizer este nossos anfitrião [como é o nome dele mesmo, Pereira? Aquele gente-finíssima, macuxi, que levou vocês à Feira do Produtor…].

Foi bom tocar nesse ponto, aliás. Sempre achei que um dos lugares emblemáticos de qualquer capital é o seu mercado municipal. É lá que se pode ter chance de entender mais rápido os hábitos alimentares da região: o que é produzido localmente, do que as pessoas gostam, o que não deixam faltar no dia-a-dia.

A cor da Feira do Produtor

A Feira do Produtor cumpre esse papel em Boa Vista. É um mercado simples, entre o bagunçado e o aconchegante, com dois prédios vazados, conjugados, de um único piso. É um desfile de cheiros, texturas, cores e sabores.

Jambu bem de perto

Vendida em frascos minúsculos [pelo trabalho e o ardor na pele que o processo causa…], a jiquitaia [pimenta seca, moída até tornar-se uma poeira vermelha, que gera um furor de quentura sem par no ser humano…] e os maços de jambu [aquela verdura que anestesia a língua, típica dos pratos de tacacá, no Pará] dividem as bancas dos feirantes com a palha trançada das peneiras quadradas ou dos tipitis [espécie de espremedor comprido, torcido para secar a mandioca moída, no processo de feitura da farinha, de tecnologia indígena].

Os sacos de farinha chamam atenção especial, pela variedade, o frescor e a fartura. “É a melhor que vocês já comeram”, diria o advogado de defesa que atuava na mesa do bar em favor de um pedido de Paçoca, a mistura de farinha com pedacinhos de carne de sol socados no pilão, um dos pratos típicos de lá – e muito comum também em estados do Nordeste.

A presença da Paçoca talvez nos ajude a enxergar um pouco melhor a conformação de Roraima, um estado formado por 15 municípios, com uma população equivalente à da cidade de Florianópolis, inteiramente dependente de recursos destinados por Brasília até deixar de ser território federal em 1988. Não é difícil imaginar o tanto de gente de fora que a exploração de ouro e diamante deve ter atraído aos garimpos, nas décadas de 1970 e 1980.

O passado recente como território também deixou suas marcas. Já da janela do táxi, chama atenção o número de repartições públicas e as estruturas ligadas às Forças Armadas no caminho entre aeroporto e hotel.

Mas é preciso relativizar [olha o risco da avaliação apressada aí…]. O hotel que nos hospedou fica num bairro de alta concentração de prédios públicos, nem todos federais, às margens da “maior praça do país, com 1km de circunferência” – nos diria, orgulhoso, o taxista.

Estava também a dez minutos de caminhada do centro comercial, rota natural para se chegar ao largo e caudaloso Rio Branco, no entorno de um acanhado mas charmoso conjunto arquitetônico com prédios históricos lindos como o da antiga Matriz de Nossa Senhora do Carmo [única igreja de origem germânica na Amazônia], restaurada há três anos.

Matriz de Nossa Senhora do Carmo, a própria

O noticiário do dia do nosso encontro chamava atenção para a visita de um grupo de jornalistas do Sudeste, convidados pelo governo a conhecer as atrações turísticas e belezuras naturais da região.

Sinal do esforço do poder público para que este ponto de interrogação no cocoruto do mapa do país seja minimamente [re]conhecido Brasil afora –inclusive como detentor do marco mais extremo ao Norte do país: o Monte Caburaí [e não Oiapoque, no Amapá, como a gente aprendeu torto na escola também…].

Eliakin Rufino: cantor, compositor, selecionado e anfitrião do Rumos em Roraima

Eliakin Rufino foi nosso principal anfitrião lá. Um dos selecionados da edição mais recente do Rumos Música, o cantor, compositor, poeta e sábio [para quem “sexo diário continua sendo o melhor remédio”, como canta numa de suas músicas] é agora também professor de literatura roraimense na universidade federal de lá. Vai dedicar-se sobretudo ao que defende [de boca cheia, com o sorriso largo habitual] como literatura indígena.

O que não falta é lastro pra isso. É de Roraima um dos grandes ícones do imaginário brasileiro, perpetuado pela literatura de Mário de Andrade de forma “diversa” — em nome da liberdade poética, digamos…

Me refiro ao “herói sem caráter” Macunaíma – ou, na origem, Makunaima, pronunciado “Macunáimã”. O relato do etnógrafo alemão Koch-Grünberg, alçado a clássico na rapsódia escrita [em uma semana!] por Mário, tem fonte na tradição oral dos índios macuxi.

Boa Vista é uma cidade amazônica atípica, aos olhos do brasileiro médio. A Amazônia, lá, não é uma “floresta densa” [como de resto, nem a capital amazonense é…]. É uma cidade incrivelmente plana, com vegetação de savana. E abafada, muuuito abafada!

A capital roraimense fica há cerca de duas horas de carro da Guiana [inglesa] ou da Venezuela. Rufino nos ajudou a enxergar as influências indígena e caribenha na cultura local. Sua própria formação musical, inda nos idos de menino, se daria pelas rádios de países do Caribe, captadas em ondas curtas.

O jornalista Fabio Malini e o cantor e compositor Maurício Pereira levam um lero

Falando nisso, a música – que foi, afinal, o que reuniu ali o “pauli[s]taliano” Maurício Pereira, o uberlandense Talles Lopes, o piauiense-mineiro Makely Ka, o capixaba Fábio Malini, o próprio Eliakin e eu – também ofereceria ótimas surpresas nessa viagem!

Os músicos Talles Lopes e Makely Ka dizem como é

A mim foi especialmente encantador descobrir e conhecer a cantora Euterpe, dona de um [recém-lançado] disco que, confesso, não só me surpreendeu, mas causou uma ótima impressão – pelo seu timbre de voz marcante, mas também pelos arranjos suingados [valorizados pelo bombardeio de metais] e o sotaque amazônico, vitaminados em Belém pelo produtor e arranjador Adelbert Carneiro e a percussão do Trio Manari, com participação das guitarras do novo “Midas” da música paraense, Chimbinha, o homem por trás do grupo Calypso.

Euterpe e o namorado, o professor e jornalista [de coração mineiro…] Avery Veríssimo, ainda me deram de presente um giro por Boa Vista, a caminho da festa de aniversário [animadíssima, mesmo sob aguaceiro] de uma amiga. Embora haja muita gente de fora na cidade, é gostoso notar os traços indígenas [caboclos, mamelucos] na morenice que domina os rostos, aqui e acolá.

Enfim, Roraima me pareceu um estado intrigante e instigante, que demanda mais tempo para decifrar. Um Brasil de fora das rotas, de farta ascendência indígena [que o diga a disputa em torno da reserva de Raposa Serra do Sol], e com um pé no Caribe diferente do que me pareceu o do Pará, por exemplo.

Um lugar que merece imersões. Que eu adoraria [e espero!] um dia fazer. Sem pressa. E com os discos da Euterpe e do Eliakin rodando no CD player do carro, claro!

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5 thoughts on “Expedição musical à terra de Makunaima

  1. Gostei muito do texto mais gostaria, se possível, de esclarecimentos quanto a este trecho. No que se refere ao estado do Pará.

    Um Brasil de fora das rotas, de farta ascendência indígena [que o diga a disputa em torno da reserva de Raposa Serra do Sol], e com um pé no Caribe diferente do que me pareceu o do Pará, por exemplo.

  2. Grande texto, Israel!
    Não sei se eles tinham ido na sexta, mas no sábado eu que levei o Makely e o Pereira na Feira do Produtor. Até entrevista de supetão arranjei pros caras.
    Abraços!

  3. Que bacana o Brasil descobrir o Brasil. Melhor ainda quando rola construção e transmissão de conhecimentos. Como um dos selecionados do Rumos Música (com o Coletivo Universal, cujo show passará na TV Cultura logo após o Roda Viva, no dia 14/06/10), gostaria de trocar ideias e sons com os amigos de Roraima. Estejam convidados a conhecer o meu trabalho: http://www.myspace.com/merijebrasil

  4. Bom saber que Israel do Vale continua escrevendo e, melhor, ainda escrevendo tao bem. A gente sabe como e’ dificil escrever facil e ele faz isso com muita propriedade.
    Vou ficar atenta aos outros textos que venham da pena dele.

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