Entrevista: Alckmar Santos

Nem bem desceu do avião, Alckmar Luiz dos Santos já caiu na estrada. Professor de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, poeta e pesquisador de literatura digital, Alckmar, que acaba de voltar ao Brasil, integra o time de realizadores dos mini-cursos do Rumos Literatura, e conversa nesta quinta, em Recife (e no domingo em João Pessoa), sobre origens e atualidades da literatura digital.

Fora do país no último ano por conta de um pós-doutorado (pesquisando leitura, ensino e aprendizagem de literatura em meio digital, com grupos de pesquisa da Universidade Complutense de Madri), Alckmar ainda está arrumando a casa, mas topou na hora a idéia do mini-curso. “Eu não digo não pro Itaú Cultural”, ele me diz por telefone na entrevista que, coerentemente com a afirmação, topou fazer.

Selecionado do Transmídia em 2002 (o precursor do Rumos Arte Cibernética), membro da comissão de seleção do Rumos Literatura 2007-2008 e depois coordenador do laboratório virtual do qual participaram os selecionados, Alckmar é parceiro antigo nessa longa conversa-viagem sobre literatura contemporânea e arte digital ou, como é o caso nessa ocasião, sobre os caminhos da literatura no ambiente digital.

Conversa longa e (ainda bem) inconclusa, Alckmar só podia mesmo dar risada quando inevitavelmente pergunto mas o que é mesmo literatura digital? “Essa é uma pergunta que se vem tentando responder há muito tempo. Podemos falar em artes digitais, de modo geral, que é menos uma definição de arte do que de meios, e no caso específico da literatura digital, que é, claro, o setor das artes digitais em que a matéria verbal é importante. Por outro lado, há uma tradição de autores impressos que já lidavam com questões importantes para a literatura digital, como a visualidade, ou o uso de combinações e permutações. Os mais próximos de nós são os concretistas, mas é possível remeter até aos gregos”. Na imbricada relação dos novos meios digitais com a tradição literária, quem cria é também quem pesquisa, discute, tenta definir enquanto faz, “e cada vez que se cria algo novo, a definição que se tinha caduca”.

Se definir não é mole, editar literatura brasileira (e ainda por cima contemporânea) também não é café pequeno, se a gente considera a conversa repetida nos debates, seminários e quetais: sobram autores, faltam editoras e público. Encafifado pergunto, a quantas anda a edição e o acesso à literatura digital no Brasil?, e escuto que, se publicar ficou mais fácil (não se precisa passa por um editor, ou pelo mercado), por outro lado o que não é tarefa simples é encontrar qualidade nessa produção.

“Se você fizer uma busca por literatura digital na rede, vai aparecer muita coisa que não é literatura digital, ou seja, que não utiliza recursos de programação. Muita gente divulga literatura impressa na internet e chama de literatura digital, mas o ‘digital’ nesse caso é só uma forma de divulgação, não uma questão artística”.

Eu havia mesmo dado um googlada, e no mar heterogêneo daquilo que se divulga, produz e discute como literatura digital, algo me chamou a atenção, o fato de que parte considerável do que se diz do assunto gira em torno do leitor. Faz sentido. Na hipótese mais singela, o ambiente digital oferece a possibilidade de se pensar novos modos de leitura. Não satisfeito com a hipótese, pergunto se a leitura passa a ser um elemento da criação, ou o leitor passa a ser co-autor do texto, necessitando ser “tão poeta quanto o poeta” (como dizia Leminski) para ler o poema?

Sem o leitor não tem texto. Eu faço uma distinção entre obra e texto, que é a de que obra diz respeito ao material, seja impresso, oral, digital. O texto é sempre resultado de uma interação do leitor com a obra, seja ela de que natureza for. No meio digital, o que ocorre é que essa interação tem a possibilidade de afetar o próprio material, a obra, por meio da programação.

Dá pra dizer que o mesmo ocorre com a crítica, já que o crítico é uma espécie de leitor especializado?

Sem dúvida, o crítico precisa entrar no ambiente digital sem ingenuidade, precisa ter um repertório além da literatura propriamente dita, precisa conhecer cultura digital, ter idéia das questões envolvidas nesse tipo de criação.

O crítico de literatura precisa conhecer mais do que literatura.

Na verdade, a questão é rever aquilo que a gente chama de literatura, ou o modo como a gente vai passar a entender a literatura. O conceito de literatura, o que cabe nessa definição, muda a cada época. Na literatura digital, a programação não é algo externo ao texto, pelo contrário, determina a criação em muitos sentidos. Muitas criações em meio digital são produzidas coletivamente, envolvem pessoas ligadas ao texto, pessoas ligadas à informática e pessoas que entendem de programação visual, e cada uma delas precisa conhecer um pouco das outras coisas.

O meio digital, então, altera a noção que se tem de literatura?

Sim, e cada vez mais a informática altera a literatura e o ambiente de leitura.

No caso do ambiente de leitura isso é visível, mas você acha que as mudanças ocorrem da mesma forma na escrita “de papel”? 

Hoje qualquer escritor usa, no mínimo, um editor de texto e um dicionário virtual. Talvez seja algo imperceptível, de que não nos damos conta, mas isso já altera radicalmente a estrutura, o ritmo e as estratégias de escrita, inclusive da “literatura de papel”.

Há alguns anos, Alckmar desenvolveu uma página de poesia eletrônica em parceria com Gilbertto Prado. A página está hospedada no site da UFSC, o que me faz pensar, que espaço a literatura digital ocupa na universidade?

Vários criadores e teóricos das artes digitais, e isso no mundo todo, estão ligados, ainda que indiretamente, à universidade. E eu diria que só conseguem trabalhar por disporem do apoio das universidades.

No seu caso, o apoio vai desde a linha de pesquisa em que atua (Teoria do texto digtal) até o núcleo de pesquisa que coordena, o NUPILL, Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística.

O núcleo, formado por alunos do Brasil inteiro, dispõe de (e disponibiliza) um banco de dados e um acervo digitalizado de literatura brasileira. São 70.000 obras (700 já digitalizadas) e 17.000 autores, acervo (um verdadeiro arsenal) a partir do qual são desenvolvidas ferramentas de leitura e ensino, espécie de carro-chefe das pesquisas do grupo.

O NUPILL surgiu em 1995, com o propósito de digitalizar as obras de Machado de Assis. Entre 2007 e 2008, o MEC encomendou a digitalização total das obras do autor, e qual a surpresa do grupo ao descobrir que, ao invés dos cerca de 40 títulos que possuía, a pesquisa ainda revelaria vários dígitos, e a soma chegaria a 242 obras. “Nosso acervo digital das obras de Machado é mais completo que suas obras completas impressas disponíveis no mercado. E ainda é de graça”.

Tá esperando o quê? Dá lá um pulo na biblioteca enquanto espera pelo mini-curso. Só não vá perder a hora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s