Entrevista: Dirceu Maués

O fotógrafo paraense e selecionado Rumos Dirceu Maués

De volta ao Brasil, o fotógrafo e selecionado Rumos Artes Visuais Dirceu Maués conta um pouco sobre a ponte aérea Arte Brasileira Contemporânea – Alemanha.

Começando com a experiência do Ateliê Residência, para Dirceu,

A obrigação de escrever e documentar meu trabalho para publicar no blog me ajudou a pensar muito mais sobre meu processo criativo. A documentação com fotos e vídeos acabou fazendo parte da exposição em uma edição em vídeo, meio making of, chamado About the process. Achei importante também colocar na exposição objetos usados na produção dos trabalhos. Uma bola de fitas adesivas, resultado do desmonte das câmeras utilizadas para fazer os vídeos da instalação, também fez parte da exposição como objeto-registro de meu processo criativo.

A viagem, por sinal,

Foi minha primeira experiência fora do Brasil. Fiquei seis meses em Berlim. Na verdade, não exatamente seis meses só em Berlim, pois aproveitei para viajar e conhecer outras cidades na Europa. Na instituição em que fiquei, Künstlerhaus Bethanien, eu tinha apenas o compromisso de produzir uma exposição, que aconteceu no fim de novembro de 2009. Me deixaram bastante livre com a escolha do que apresentar. Não precisava ser necessariamente um trabalho produzido em Berlim, mas fiz questão de produzir um trabalho que tivesse haver com a cidade, seguindo a linha do que já vinha fazendo no Brasil com minhas pinholes. Fiquei num estúdio de 60m² com cama, guarda-roupa, fogão elétrico, pia, frigobar, tv. Os banheiros eram de uso comum, mas só os artistas tinham as chaves. O prédio era bem grande, parecia um antigo castelo. Na verdade tinha funcionado como hospital até a década de 60. Funcionavam lá, além do Bethanien, mais três instituições ligadas a arte. No inicio achei estranho, com cara de mal assombrado, mas no final das contas foi muito bom viver ali. Havia workshops, sala de computadores, laboratório fotográfico, enfim, uma estrutura muito boa de apoio. Tive um ótimo apoio financeiro para produzir minha exposição e para custear também os materiais necessários para minha produção artística, além da bolsa mensal de alimentação e transporte.

Não tinha uma rotina de trabalho exatamente. Passei uma boa parte do tempo trabalhando em meu projeto, mas pude visitar muitos museus e galerias. Fui à Bienal de Veneza, ao ArtForum. Tive oportunidade de visitar o Louvre, Pompidou, Tate Modern, Museu Picasso, Museu Van Gogh, entre outros, e muitas e muitas galerias.

A interlocução com outros artistas foi uma das melhores coisas que aconteceram, pois conheci muita gente, e não só quem vivia lá no Bethanien. Fiz muitos amigos em Berlim. No Bethanien, nos ajudavamos e conversavamos sobre nossos trabalhos. Essa troca era muito interessante, puder ver de perto o processo criativo de muitos artístas.

E como foi a exposição em novembro? Os trabalhos expostos foram realizados já na Alemanha? A exposição vem ao Brasil também?

Somewhere – Alexanderplatz era o título. A exposição foi bastante visitada, algumas pessoas ficavam curiosas sobre meu processo e me procuravam para conversar. Produzi uma instalação com seis vídeos pinholes feitos em Alexanderplatz.  Um coletivo de artistas portugueses, O Piso, me ajudou na tomada das fotografias. Esse trabalho será mostrado em Belém, em abril, durante o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, do qual estarei participando como artista convidado.

Durante o Open Studios, a troca com o público foi bem maior, e pude mostrar alguns trabalhos do Brasil. É incrível como o público participa. Bethanien lotou nesse dia: estúdios e corredores lotados de um um público curioso e interessado em ver coisas novas.

Um pouco sobre o que muda, um pouco sobre o que não muda, Dirceu conta que

Na ida, não criei grandes expectativas, no sentido de que não planejei exatamente o que ia fazer por lá. Sempre fui deixando as coisas acontecerem e  gosto da idéia de ir descobrindo as coisas no caminho. Minha expectativa talvez fosse essa: ir descobrindo e desvendando no dia-dia esse novo universo, essa experiência de viver por um tempo em um lugar com uma realidade bem diferente da minha. Depois disso tudo, me sinto mais seguro para experimentar cada vez mais para além do campo da fotografia. Comecei meu caminho nas artes como fotógrafo e a fotografia era meio como uma religião no começo, ainda é para muitos fotógrafos. Gostava de fazer experimentos no início, mas nunca assumia como trabalho sério, eram brincadeiras. Há algum tempo isso se inverteu e venho investindo nas velhas brincadeiras como meu trabalho autoral. Talvez a experiência de Berlim só tenha me incentivado a continuar cada vez mais subvertendo as linguagens e começar a explorar novos campos além da fotografia.

Encerrando o papo com o recomeço, Dirceu diz que os próximos passos no Brasil são

Terminar meu curso de artes na UnB e dar sequência a novos projetos. Tentar sobreviver de arte no Brasil é um grande desafio. Espero dar mais alguns passos nessa direção.

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About reuben da cunha rocha

São Luís (MA), 1984. Jornalista, escritor e tradutor, com trabalhos publicados em revistas como Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Revista de Autofagia, Cult, Modo de Usar & Co. e Continuum, do Itaú Cultural. Em 2004, foi selecionado da primeira edição do Rumos Jornalismo Cultural. Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, também é editor da revista Semeiosis, do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação.

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