Colóquio: um retrato

São Pedro exagerou na quilometragem das águas de São Paulo nestes últimos dois dias, mas fora o rio de carros na av. Paulista visto através do vidro e o eventual atraso de algum convidado, quem estivesse dentro da sede do Instituto Itaú Cultural nos dias 03 e 04 mal notava: a sala que abrigou as mesas do VI Colóquio Rumos Jornalismo Cultural manteve boa média de público em todos os horários, levando Matinas Suzuki, editor da revista Serrote e participante do último debate (que terminou às 22h20 da sexta-feira) a concluir, brincando, ou a brincar, concluindo: “vocês só podem estar sem coisa melhor pra fazer!”.

Os debates da sexta começaram às 16h com Alcino Leite (Folha de S. Paulo e Trópico), Almir de Freitas (Bravo! e Bravo Online) e Lúcia Guimarães (Estadão e Rádio Eldorado) falando sobre em que ponto de suas trajetórias precisaram se adaptar à web. Eles que já estão na estrada há um bom tempo e que sentiram, cada um a seu modo, a coisa mudar: o projeto de Alcino para uma versão online do caderno Mais! que após uma longa temporada na gaveta resultou na revista Trópico; a resistência de Lúcia Guimarães ao personalismo dos blogs e sua posterior adesão à internet, é claro, noutro formato; o projeto pessoal de Almir de Freitas para um blog que acabou sendo abraçado pela revista Bravo! e incorporado ao site da publicação.

Na sequência, Alex Primo (professor da UFRGS), Alexandre Inagaki (do Pensar Enlouquece, Pense Nisso) e Renato Franzini (do G1) conversaram sobre as especificidades culturais da internet, do ponto de vista de um pesquisador, de um editor de um grande portal e dum jornalista-escritor cuja carreira já nasceu online: construção de reputação, a estranha cultura das celebridades, a voz do público nas caixas de comentário, o funcionamento das redes de relacionamento, a lógica do público-alvo virada do avesso quando, ao invés de falar pra milhares, importa falar para quem o assunto importa.

Assim como na quinta-feira a programação terminou com uma mesa diferente — uma contundente reflexão crítico-filosófica sobre os impasses do jornalismo que vive de pressa –, na sexta o encerramento dos debates ocorreu com uma mesa menos analítica e mais, digamos, propositiva: três experientes editores se propuseram a apresentar cinco princípios fundamentais para uma boa revista cultural, feita com papel ou códigos binários.

Matinas Suzuki (da Serrote) aposta em 1) simplicidade, 2) projeto bem-definido, 3) alma, 4) competência não só para boas idéias, mas para executá-las e 5) ter as pessoas certas envolvidas. O editor de cultura da revista Época, Luis Antonio Giron, sugere 1) surpreender quem faz e quem lê (“buscar o efeito ‘ó!'”), 2) ter ênfase em idéias, e não no factual, 3) ter expressão na internet, mesmo que a revista seja de papel, 4) um design original e 5) saber qual o seu público-alvo. Guillermo González, da colombiana Número, enumera: 1) ter paixão e conhecimento, 2) definir um projeto editorial, 3) dispor de tempo para apuração, 4) ser arrojada e propositiva e 5) funcionar como verdadeiro pólo de pensamento e criação dentro da sociedade na qual está inserida.

E foi com este ponto comum, como observou o moderador José Castello, que se pareceu achar um bom rumo para o jornalismo cultural: paixão, alma, surpresa. Aquele envolvimento pessoal que torna as coisas escritas muito mais verdadeiras, com potencial até para transformar quem as ler.

***

Não esquecendo do bate-papo de hoje à tarde com o veterano Humberto Werneck, e das fotos que logo logo pintam aqui pelo blog. Agora vá lá e bom fim de semana pra você.

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One thought on “Colóquio: um retrato

  1. Pingback: Por um jornalismo de princípios inconstantes | Conexões Itaú Cultural

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